O CENIPA publicou seu Sumario Estatístico da Aviação de Instrução – 2007/2016, um documento de leitura obrigatória para todos que atuam na aviação. Mas como nem todo mundo tem disposição para ler gráficos e interpretar tabelas estatísticas, recomendo que, pelo menos, leiam o prefácio abaixo reproduzido, escrito pelo Ten.Cel. Renato, ex-chefe do SERIPA-V e idealizador do EPIA-Estágio de Padronização da Instrução Aeronáutica. E para quem tiver paciência para embrenhar-se naos números, reparem na relevância dos fatores contribuintes “manutenção” e “supervisão gerencial”, a na quantidade de acidentes/incidentes com AeroBoero e Paulistinha em ocorrências de solo, especialmente no pouso. Acho que isto, por si só, já explica muita coisa sobre o que está acontecendo nos aeroclubes e escolas de aviação do Brasil.

O descompasso da Aviação de Instrução no Brasil

A Aviação de Instrução é o portal de entrada do futuro profissional que pretende auferir lucro com essa atividade. E o começo de tudo na aviação. É onde acontecem os primeiros passos do aviador, e por isso, é necessário incentivar a profissionalização, ou seja, colocar a realidade da aviação nas escolas de ensino desde o começo, para que seja estabelecido um circulo virtuoso.

O Sumário Estatístico da Aviação de Instrução tem, nesse contexto, o intuito de subsidiar os profissionais e interessados no tema com dados analisados, no período entre 2007-2016, sobre as ocorrências aeronáuticas envolvendo este segmento de aviação.

A aviação de instrução no Brasil passa por um momento de grandes dificuldades. A maioria das Escolas, Centros de Instrução e Aeroclubes no país utilizam aeronaves convencionais e tecnologicamente ultrapassadas. Há um descompasso entre o que a instrução pode oferecer em relação ao que acontece em um ambiente de Linha Aérea ou de Aviação Executiva. Cabe destacar ainda a desatualização dos manuais de curso, bem como a falta de uma instituição, seja pública ou privada, que invista na padronização do instrutor de voo*.

Nesse contexto, há ainda a falta de informação técnica especializada disponível sobre as ocorrências aeronáuticas envolvendo aeronaves de instrução no Brasil. Faz-se imprescindível destacar que o Sumário Estatístico da Aviação de Instrução é um compêndio de dados trabalhados a respeito das ocorrências deste segmento, no período entre 2007-20016, em território brasileiro, feito para sanar a ausência de conhecimento técnico consolidado e transparência das informações.

O perfil básico do instrutor de voo disponível no mercado é aquele jovem interessado em voar nas instituições de ensino para acumular horas de voo e obter uma licença de Piloto de Linha Aérea. A realidade sócio-econômica das instituições de ensino não promove a fixação do instrutor a uma carreira. Como a oferta é maior que a procura, não há nenhum atrativo financeiro relacionado a esta ocupação. A atividade de instrução é um ofício passageiro. Um trampolim para uma oportunidade futura mais vantajosa. A informalidade e a falta de motivação têm consequências
graves à instrução aérea.

É essencial o reconhecimento da profissão de instrutor como aquele profissional responsável pela transmissão do conhecimento ao aluno, com enfoque técnico, pedagógico e psicossocial. A valorização do instrutor depende de uma carreira estável, com benefícios e salários mais atrativos. Assim, os melhores “professores” (mais didáticos) podem agregar mais qualidade à instrução aérea. Afinal, a demanda da Aviação Civil é sazonal e periodicamente não consegue absorver toda a oferta de “ex-instrutores” de aeroclubes e escolas.

Nesse cenário, é urgente a revisão das políticas e incentivos à Aviação de Instrução, bem como a utilização extensiva de simuladores de voo, entre outros recursos tecnologicamente avançados. A gestão destas instituiçes precisa ser mais atuante e presente no dia a dia da Instrução Aérea. Um dos maiores obstáculos identificados é a ausência dos gestores e diretores em grande parte destas organizações, pois a maioria exerce outros ofícios paralelos e não consegue atuar diretamente nas condições e circunstâncias que geram os acidentes.

Esses profissionais gestores também necessitam de dados consolidados sobre as ocorrências aeronáuticas, disponível neste Sumário Estatístico da Aviação de Instrução, para melhor gerir as instituições ligadas à aviação de instrução e para manter elevados os níveis de segurança de voo neste segmento. São dados tratados sobre ocorrências aéreas que aconteceram, no período entre 2007-2016, em território brasileiro.

Tenente-Coronel Aviador Luís Renato Horta de Castro

Investigador de Acidentes e Piloto da Aviação de Caça e de Reconhecimento da Força Aérea Brasileira, com 3.000 horas de voo, tendo exercido funções em diversas organizações militares do Comando da Aeronáutica.

*O Instituto ParaSerPiloto foi criado para, dentre outras finalidades, exercer esta função. Só nos falta um coordenador para levar um projeto de padronização da instrução adiante.

Em tempo: parabéns ao Ten. Almeida, estatístico do CENIPA, pela publicação deste relatório!