No primeiro episódio dessa série#, conversamos sobre a importância do briefing. Agora, gostaria de me aprofundar mais em uma das questões mais importantes em relação à manutenção da segurança do voo: O fato de seguirmos (ou não) um plano pré-determinado. Além disso, o assunto dessa vez irá servir de introdução para futuros temas relacionados à tomada de decisão aeronáutica (ADM).

Veja bem…. Se nos preparamos para uma fase do voo, seja ela qual for, por que aceitar sugestões externas que tem o poder de mudar o curso de ação e afetar negativamente nossa performance? Gostaria de comentar algumas situações reais que vivi, e que se tornaram perfeitos exemplos de como podemos ser facilmente induzidos ao erro ao aceitar sugestões externas. Nestes casos, são sugestões feitas exclusivamente pelo controle de tráfego aéreo:

  1. Ao preparar a cabine para um voo IFR com um aluno, o controle de solo nos interrompeu durante a execução do checklist para autorizar o taxi da aeronave até o ponto de espera. Meu aluno cotejou a autorização e simplesmente iniciou o deslocamento da aeronave*, sem dar continuidade aos checks. Nós ainda não havíamos programado nosso procedimento de saída, nem o piloto automático, e nem terminado os briefings. Fiquei impressionado com a facilidade com a qual uma instrução do controle deu um override na sequência de tarefas de meu aluno.
  2. Um dia eu estava me aproximando para um procedimento ILS, na proa de um fixo de entrada (IAF). A aeronave já cumpria a descida programada em um ângulo ideal que calculei junto ao FMS. Em determinado momento, o controle me autorizou a proa direta para interceptação do localizador*. Sem pensar muito, e enxergando essa autorização como oportunidade de ganhar tempo, cumpri sem questionar. Foi só quando ingressei na final que percebi, obviamente, que estava chegando muito alto na rampa. Minha descida foi encurtada pela proa direta e, voando um avião não pressurizado, não valeria a pena compensar com razão de descida maior. O jeito foi pedir, de maneira até um pouco embaraçada, um 360 na final, em condições visuais.
  3. Certa vez me aproximava de um aeródromo controlado pela manhã, logo após o nascer do sol. Era a primeira vez em que pousaria lá naquele horário. Escutei o ATIS e me preparei para um pouso visual que exigiria um circuito completo pelo setor que me aproximava. Como não havia mais nenhum tráfego, e o vento estava calmo, a torre me perguntou se eu gostaria de fazer uma final direta para a cabeceira oposta*. Novamente, aceitei com o intuito de simplificar a operação. O que eu não havia considerado era que iria pousar encarando o sol nascente. O céu estava totalmente aberto, e o reflexo da luz da manhã na cidade cinza impediu qualquer visualização clara da pista abaixo. O espelhamento gerou uma ilusão tão forte que ficou quase impossível achar a pista, em um dia completamente claro. Ao aceitar a sugestão do controlador, me coloquei em uma situação que não havia avaliado anteriormente. Hoje sei que deveria simplesmente ter seguindo o plano original e pousado com o sol na cauda.

Em todas essas situações, poderia ter me saído melhor caso, em determinado momento, tivesse analisado com calma a sugestão feita pelo controlador e recusado a mesma, mantendo meu plano inicial. Marquei esses momentos com um “*” nos exemplos. Na dúvida, peça um tempo ao controlador. Não aceite nenhuma pressão para agilizar algum procedimento, ou se sinta na obrigação de acatar sugestões que possam comprometer sua consciência situacional, aumentar a sua carga de trabalho ou mudar abruptamente seus planos.

Na próxima coluna, iremos falar sobre ADM, ou seja, tomada de decisão aeronáutica. Através deste conceito entendemos como nossa mente funciona ao receber, analisar e processar informações, e usa este conteúdo para tomar ação. Fica a reflexão deste texto: cuidado ao aceitar qualquer tipo de sugestão, vinda de controladores de tráfego aéreo, outros pilotos (voando junto ou em outras aeronaves) ou até mesmo de passageiros. Faça sempre uma avaliação precisa e abrangente de todas as variáveis possíveis antes de decidir um curso de ação.

Para quem curte pesquisar acidentes aéreos, fica aqui uma dica: o caso do American Airlines 965 em Cali, na Colômbia, envolveu o fato de a tripulação ter aceitado uma sugestão do controlador de mudar o de procedimento de aproximação para favorecer uma chegada direta pelo setor que se aproximavam. Essa mudança repentina fez com que a reprogramação da chegada colocasse o voo em apuros. Para quem ainda não conhece o caso, vale a pena a leitura!

#Obs.: Trata-se da coluna Safety Tips publicada no antigo blog ParaSerPiloto.com. Em breve, todos os artigos do Jan serão trazidos para este novo espaço.