Dentre as lendas que povoam o folclore aeronáutico nacional, há a que diz que a ANAC não autoriza voo de aeronaves em formação. “Nem adianta tentar, ‘eles’ vão te enrolar, exigir um monte de coisa que você não terá como cumprir, e no fim das contas vai ficar pior: ‘eles’ vão saber que você quer voar em formação e vão colocar um INSPAC para te vigiar; melhor nem tentar” – é o que me disseram em conversas de porta de hangar. Então tá então…

Mas só para desencargo de consciência, fui ver quais seriam as exigências do regulamento para realizar o tal “voo proibido”, e encontrei o seguinte no RBHA-91:

91.111 – OPERAÇÃO PERTO DE OUTRA(S) AERONAVE(S)

(a) Nenhuma pessoa pode operar uma aeronave tão perto de outra que possa criar risco de colisão.

(b) Nenhuma pessoa pode operar uma aeronave em vôo de formação com outra(s) aeronave(s), a menos que o vôo seja autorizado pelo SERAC da área e seja precedido por um “briefing” entre os pilotos em comando das aeronaves envolvidas.

(c) Nenhuma pessoa pode operar uma aeronave em vôo de formação se a referida aeronave estiver transportando
passageiros com fins lucrativos.

A despeito da ortografia obsoleta e de outros anacronismos, como a referência ao SERAC (da época do DAC), a regra é bastante simples e clara. Será que voar em formação de maneira regular é realmente tão complicado assim?

Bem… Na verdade, há algumas dificuldades. Como fazer o tal “‘briefing’ entre os pilotos em comando das aeronaves envolvidas”? Há regras e/ou critérios para isto publicados em algum lugar? E como dar entrada no pedido junto à ANAC, já que não mais existem os SERACs? Mas a única maneira de descobrir como se faz é fazendo, e em agosto passado surgiu uma oportunidade para colocar a teoria em prática.

O Bonanza Clube do Brasil comemora seu aniversário com um evento festivo, e neste ano havia a intenção de incluir um voo de formação com Baron’s e Bonanza’s entre as atrações. E para que tudo ocorresse estritamente dentro do requerido pelo regulamento, realizamos uma parceria entre o Instituto ParaSerPiloto e o Bonanza Clube para assessorá-los na obtenção da tal “autorização impossível”. Resultado:

  • Em 10 de agosto, protocolamos o pedido de autorização junto à ANAC;
  • Em 14 de agosto, a ANAC envia um ofício ao Bonanza Clube autorizando a realização do voo em formação; e
  • Em 19 de agosto ocorre o evento comemorativo, e o voo em formação se dá sem problemas e de maneira totalmente regular.

Lamento pelo folclore aeronáutico nacional, mas a lenda do “a ANAC não autoriza voo de aeronaves em formação” foi sepultada… Fazendo tudo de maneira profissional e ética, é possível, sim, realizar um voo em formação de maneira regular e com muito mais segurança, sem risco de sofrer autuação em uma eventual ação de fiscalização. E, ainda por cima, evitando as dores de cabeça adicionais em caso de acidente, como a não-cobertura do seguro, ou, pior, a responsabilização civil e criminal de operadores e pilotos.

Este é um ótimo exemplo de serviço que o Instituto ParaSerPiloto quer prestar à comunidade aeronáutica. Quer fazer um voo em formação de maneira regular? Entre em contato com a gente: teremos o maior prazer em ajudar!