Durante toda a nossa vida estamos tomando decisões. Escolher uma roupa para sair, abastecer o carro, montar um prato de comida… todas essas ações exigem que nossa mente faça um processo de percepção e análise dos acontecimentos para poder optar pelo curso de ação ideal. Mesmo quando não optamos por ação alguma, ainda assim o processo aconteceu.

Existe um modelo para o processo de tomada de decisão aeronáutica (ADM) que leva o acrônimo inglês DECIDE: detect, estimate, choose, identify, do, evaluate.

Vamos destrinchar esse processo iniciando com um exemplo que não seja da aviação. Imaginemos que você esteja em uma importante reunião de negócios e seu celular começar a tocar em vibra-call no seu bolso. Agora entra em jogo o modelo DECIDE:

  • Detect: você detecta que alguma coisa está acontecendo. Geralmente, nos chamam mais atenção as coisas que não estavam no plano original. No caso, é o seu celular tocando.
  • Estimate: você estima se há a necessidade de reagir ao acontecimento. Deve dar atenção ao celular? Ou a melhor saída seria simplesmente ignorá-lo?
  • Choose: você escolhe qual será a melhor consequência de uma decisão. É claro que atrapalhar uma reunião importante nunca é o ideal. Mas, por outro lado, não podemos deixar uma pessoa em uma ligação importante na mão, certo?
  • Identify: você identifica quais cursos de ação poderão ser tomados para que haja controle da situação. Nesse momento, você pensa que seria melhor verificar quem está te ligando afinal. Poderia ser só mais uma ligação de telemarketing, mas também poderia ser um familiar em uma situação delicada. Você conclui que a melhor saída é decidir por atender (ou não) baseado no conhecimento de quem está te ligando.
  • Do: essa é a parte em que você realmente toma a atitude. Você olha para a tela do aparelho e vê que é o número do seu irmão. Ele nunca liga nesse horário. Você conclui que talvez seja alguma coisa importante. Então você pede licença, explica a situação para os demais colegas, sai da sala e atende à ligação.
  • Evaluate: aqui temos um mini-debriefing. Após o curso de ação, você avalia as consequências de sua atitude e armazena aquela experiência (inclusive se tiver sido negativa) para tomadas de decisões futuras.

Agora, vou dar um exemplo de situação real onde um bom processo de ADM e consciência situacional fizeram com que a segurança de voo fosse mantida, e o uso dos recursos otimizado.

Estou voando como safety pilot em uma aeronave monomotora. Estamos na perna do vento para um pouso visual. Escuto na fonia um Airbus reportando à torre que está passando o fixo intermediário (IF) do procedimento RNAV para a mesma pista. Neste momento, a torre nos pergunta se temos condições de seguir para pouso à frente do jato, como número um. Na minha cabeça, a resposta seria não. O ideal seria pedir um 360 na perna do vento ou um alongamento da mesma para pousar atrás do jato. Meu colega piloto, porém, responde prontamente que “sim”. Aqui começa o DECIDE na minha cabeça:

Detecto que o meu companheiro nos colocou em uma situação desfavorável. Uma aeronave de baixa performance vai ter que pousar (e livrar a pista) a tempo de permitir o pouso de um jato a menos de 10 milhas da cabeceira. Não há risco real para a segurança dos voos em questão, mas há grande probabilidade de a atitude do meu colega acabar obrigando o Airbus a arremeter, custando à empresa alguns reais a mais em combustível, e ao controlador uma boa dor de cabeça.

Estimo a necessidade de reagir. Caso não faça (ou diga) nada, provavelmente meu colega prosseguirá para pouso normalmente sem considerar o grande jato em sua retaguarda. O controlador da torre com certeza irá perceber que houve um erro de julgamento de ambas as partes.

Escolho que a melhor consequência para uma decisão vai ser: nós pousarmos com segurança e também evitar um abalroamento ou arremetida do grande jato.

Identifico que existem duas boas alternativas: a primeira é abortar o pouso o quanto antes, reingressar na perna do vento como número dois e aguardar o pouso dos colegas no jato. A segunda é fazer um circuito e pouso curtos, livrando a pista na primeira taxiway disponível após a desaceleração da aeronave.

Faço a opção dois. Instruo meu parceiro piloto a encurtar o tráfego e manter a velocidade, deixando para configurar e reduzir a exatos 500ft agl (aproximação estabilizada). Além disso, peço para que não pouse na marca dos mil pés, e sim um pouco mais adiante, para termos menos espaço entre o toque na pista e a taxiway central. Dessa forma, agilizamos o pouso sem comprometer a segurança de voo.

Avalio a minha tomada de decisão. Fizemos nosso pouso com segurança e o Airbus chegou tranquilo assim que livramos a pista. Comento no debriefing com o piloto sobre sua decisão. Para ele, acabou sendo mais uma lição aprendida. Havia faltado consciência situacional na hora de responder à pergunta do controlador. Para mim, fica sendo mais uma experiência de ADM arquivada de m meu “HD” e com certeza irei usar estes parâmetros para decisões futuras.

Resumimos o conceito de tomada de decisão pelo modelo 3P: perceive (perceber as circunstâncias), process (processar as informações disponíveis) e perform (agir).

Em tempo: quem assistiu ao filme Sully pôde ver, em diversas cenas, aos pilotos fazendo (e depois explicando) o processo de tomada de decisão na hora em que optaram por pousar no rio Hudson.