Se você leu a primeira parte deste texto, então deve estar pronto para copiar esta continuação.

Acredito muito que a natureza da relação entre piloto e controlador é propensa a conflitos. Vou dar alguns exemplos…

Quantas vezes você já teve um sentimento parecido como o de fazer uma prova quando apresenta um plano de voo? Seja por telefone ou no Sigma, quando acabamos esquecendo uma coordenada ou o formato de um remark específico no “campo 18”, ouvimos (lemos) uma avaliação ruim ou uma mensagem em vermelho dizendo que não estamos certos.

Logo que entramos no avião em um aeródromo controlado e chamamos para autorização de tráfego, na cópia somos às vezes surpreendidos por um “negativo” sobre um procedimento de saída, uma altitude ou um código transponder.

Por vezes no voo em uma terminal como a de São Paulo, você se sentirá um pouco inseguro e terá que olhar pelo menos uma segunda vez “qual é mesmo a altitude máxima neste corredor visual? Tenho que estar dentro dos limites para chamar o controle”.

O fato é que esta nossa profissão (ou hobby para alguns) exige aperfeiçoamento e atualização constante, não dá pra estudar tudo de novo quando estamos lá em cima.

O segredo, sabemos, está na preparação: o famoso planejamento.

Ainda assim, acredito que muita gente lida de forma muito pessoal com tudo isso, e o que quero propor como “solução” nesta coluna são dicas e técnicas para o seu comportamento.

O próprio exemplo do significado da palavra “cotejar”, que remete a confronto, tende a criar a primeira situação de estresse com o controlador. O que quero lembrar neste texto é que o confronto se dá entre as informações e não entre as pessoas do piloto e do controlador.

Se você fez tudo que estava a seu alcance e se preparou para o voo que irá fazer, então um diálogo calmo e assertivo deverá possibilitar um entendimento com o operador do outro lado da fonia. Mas, ainda que você não esteja confiante, e do outro lado haja uma pessoa que parece não estar no melhor dos dias de sua vida, a comunicação clara, calma e assertiva deve ajudar a lembrar que o objetivo de ambos é produzir uma autorização segura que permita a todos os tráfegos (não apenas o seu, claro!) operarem de forma ordenada e ágil.

Uma vez, realizei um voo de adaptação em uma aeronave monomotora em um aeródromo controlado. Eu era novo de carteira e até já tinha dominado a aproximação em outros aviões, mas naquele dia em especial não fiz o mais brilhante dos meus pousos. No retorno da área de instrução pedi à torre um toque e arremetida. No arredondamento errei a sincronia entre velocidade, atitude e altura, e acabei dando um pulo na pista antes de conseguir firmar a aeronave no solo e em seguida realizar a arremetida (eu sei, você nunca deve ter feito isso na vida 😉 ).

Na aproximação seguinte realizei o pouso completo já dentro do normal. Ao livrar a pista, a controladora diz: “libere na central, após livrar chame solo em ‘1-2-x-decimal alguma coisa’. Belos três pousos!”

A frase dela certamente não é um exemplo de profissionalismo e poderia lhe custar o emprego sob um olhar estritamente técnico. Mas aquelas palavras são para mim até hoje uma memória agradável do processo de formação e aprendizado. Eu tenho comigo que sou um melhor piloto a cada aproximação que saiu do desejado. A segurança de quem sou enquanto pessoa e a consequente capacidade que tenho como piloto não dependem de um único pouso ruim em que alguém estava me “secando” lá da torre. Eu rio dessa lembrança até hoje.

Sempre me preparo muito para meus voos, e acredito que se eu realizei meu planejamento com cuidado, então posteriormente poderei me dedicar a usar o serviço do controlador para facilitar minha operação e a de outros – sem ter que me preocupar tanto, ou consultar em voo informações simples de obter no solo.

Se a natureza da relação entre piloto e controlador realmente for propensa a conflito, você pode contribuir para uma troca mais ou menos saudável. Você estará preparado e disposto a lidar de forma produtiva com os controladores em seu próximo voo?