Neste começo de 2018, a imprensa do mundo todo repercutiu a tal "pesquisa conjunta de uma empresa holandesa com uma organização americana que monitoram acidentes aéreos" (vide matéria do Jornal Nacional) que concluiu que 2017 teria sido o ano mais seguro para a aviação mundial desde que se mede tais indicadores - o índice seria zero ("não houve um único acidente aéreo com mortes em voos de empresas comerciais grandes", segundo o JN), impossível de ser batido, portanto. Até o Pres. Trump estaria tentando tirar uma casquinha da boa notícia, segundo consta. "O último grande acidente foi o que todos nós choramos: o da Chapecoense em 2016, que matou 71 pessoas e deixou seis feridos", complementa a matéria acima citada.

De fato, 2017 foi um ano excelente para a segurança da aviação mundial - em alguma medida também por sorte, dado que atentados terroristas (como o Malaysia-17, em que um míssil atingiu a aeronave que sobrevoava a Ucrânia em 2014), ou suicidas (como o Germanwings-9525, em que o copiloto jogou o avião nos alpes franceses propositalmente em 2015), dificilmente seriam evitados, por melhor que seja a tecnologia aeronáutica ou o treinamento de tripulantes. Mas não sei se é possível generalizar esta conclusão para a aviação como um todo. E nem o LaMia-2933 (o acidente da Chapecoense em 2016) seria contado na tal pesquisa, se tivesse ocorrido em 2017, dado que não foi com uma "empresa comercial grande" (a LaMia era um táxi aéreo boliviano pequeno).

Aplicando uma "caneta desesquerdizadora" sobre a manchete do JN (vide imagem no topo deste post), seria necessário complementar o texto com a observação de que "(...) nunca foi tão seguro viajar de avião de linha aérea". Tenho dúvidas sobre se o mesmo pode ser dito acerca da aviação geral mundial ou brasileira.

No Brasil, a última edição do RASO-Relatório Anual de Segurança Operacional, publicado pela ANAC no final de 2017 com os números de 2016, mostra que alguns segmentos da aviação do nosso país não estão caminhando na mesma direção da pesquisa mundial que a imprensa está noticiando - caso da aviação agrícola, vide gráfico abaixo reproduzido (pág.30 do relatório):

Na verdade, como os dados relativizados sobre acidentes da aviação brasileira (ex.: acidentes/horas de voo) são muito escassos, é muito difícil chegar a conclusões cientificamente embasadas quanto aos índices efetivos de segurança dos diversos segmentos da aviação brasileira. Devido à crise econômica, a atividade aeronáutica se reduziu muito nos anos recentes, e, por óbvio, quanto menos se voa, menos acidentes tendem a ocorrer. Isso tende a mascarar as conclusões.

Há, entretanto, uma maneira de se arbitrar um indicador que pode trazer alguma luz para as trevas estatísticas dos indicadores de segurança dos diversos segmentos da aviação brasileira: é o Cálculo do Risco Relativo à Linha Aérea - Ajustado mostrado na seção "elocubrações com números" deste post. Em 2018, pretendo trabalhar para corrigir sua principal fragilidade, a arbitrariedade do Fator do Segmento, com dados mais precisos colhidos junto à ANAC e associações da aviação.