Desde o início desta coluna no blog, tenho escrito sobre temas relacionados a CRM e SRM (Cockpit/Corporation Resources Management e Single Pilot Resources Management), ou seja, o gerenciamento de recursos (Resources Management) tanto para operações ‘dual-pilot’, bem como ‘single-pilot’. A primeira pergunta que alguns se fazem quando se deparam com estes temas é: afinal, o que são todos esses tais recursos? Ao invés de apresentá-los logo de cara, deixei para encerrar o assunto apresentando um resumo dos tais resources de acordo com alguns modelos bem intuitivos.

O primeiro (e mais conhecido) modelo de recursos é o dos 5 P’s. Cada “P” representa uma categoria de resources específicos. Vamos dar uma olhada:

  • Plan (plano): inclui toda a parte de planejamento do voo. Muito mais do que apenas a navegação, o planejamento do voo abrange itens como: meteorologia, NOTAMs, cartas, horários, combustível e abastecimento, reservas de pátio/hangaragem e slots, etc… Um bom voo começa por um bom planejamento, antecipando eventuais situações adversas e preparando o piloto para os acontecimentos esperados.
  • Plane (aeronave): diz respeito à aeronave e sua situação mecânica, desempenho, equipamento e aeronavegabilidade. Além disso, inclui a papelada (documentação), itens ‘go’ e ‘no-go’, capacidade de navegação (PBN, por exemplo) e a validade do database, capacidade de transporte dos PAX, etc. Um piloto que conhece bem sua aeronave tem menos chances de ser pego “de surpresa” e tomar sustos. Respeitar os limites operacionais de cada avião também contribui em muito para a segurança operacional.
  • Passengers (passageiros): Na aviação executiva, temos um contato bastante direto com os passageiros. O modo com que lidamos com eles também influencia diretamente na segurança de voo. Estou levando um PAX novato ou experiente? Vou entrar na pilha de um passageiro apressado? Ou ficar complacente quando acompanhado de um PAX calmo, que gosta de conversar e puxar assunto?! Se for uma pessoa medrosa, terei que tomar alguns cuidados para não fazer com que tome sustos. Se for muito corajoso, pode tentar me incentivar a voar em condições desfavoráveis. Quais as pressões que poderão exercer sobre mim e o voo, em relação aos horários, destinos, bagagem a ser carregada, etc. Quais mudanças de plano poderão acontecer de última hora?
  • Programming (programação): a configuração do painel/aviônica para cada fase do voo. Uma operação pode mudar da água pro vinho de acordo com a maneira que o piloto faz uso dos recursos de painel para obter informações e realizar tarefas. Como reprogramar em caso de desvios ou mudanças de rota? Principalmente em casos de aproximações perdidas em condições IMC, uma boa familiarização com a programação dos instrumentos e telas é primordial.
  • Pilot (piloto): diz respeito a nós mesmos, pilotos, e nosso bem-estar físico. Para essa parte foi desenvolvido um checklist específico; o IMSAFE checklist:
    • Ilness – piloto livre de sintomas de doenças. A medicina aeroespacial já cansou de nos avisar que alguns sintomas, por mais inofensivos que pareçam aqui embaixo, têm seus efeitos potencializados lá em cima.
    • Medication – o uso de remédios deve ser cuidadosamente avaliado antes de ser combinado com voo. As drogas também têm seu efeito potencializado com a altitude.
    • Stress – já conversamos bastante sobre o gerenciamento de stress. Quando for voar, o piloto deve deixar suas preocupações para fora da porta da aeronave.
    • Alcohol – cada país tem a sua legislação específica. Recomenda-se cortar o uso entre oito e 12 horas antes de um voo.
    • Fatigue – sono em dia e corpo descansado, com repouso suficiente.
    • Eating – piloto bem alimentado e hidratado para o voo. Alguns alimentos podem ser pesados e causar desconforto ou indisposição. A falta de alimentos também contribui para uma diminuição no nível de atenção.

Outro modelo conhecido é o PAVE (Pilot, Airplane, Environment and External Pressures). Este acaba utilizando a maioria dos recursos que já vimos nos 5 P’s, sendo que a grande novidade aqui é o ambiente (environment), ou seja, fatores externos como: controle de tráfego aéreo, auxílios à navegação, meteorologia, tráfego, terreno, estrutura aeroportuária, espaços aéreos, voo noturno e ilusões sensoriais. Todos esses itens também são considerados recursos.

Espero que tenham gostado de se informar sobre estes assuntos tanto quanto eu. Para dar continuidade ao Safety Tips, vamos começar a analisar alguns casos, reais ou não, de situações de risco, eventualmente causando acidentes, e entrar na perspectiva da mente do(s) piloto(s).

Até a próxima!