[Artigos originalmente publicados no blog ParaSerPiloto:

  • Por que a segurança de “aviões pequenos” não é a mesma dos “aviões grandes”? – Ou: muito prazer, senadores, eu sou a Parte II do Anexo 6 da ICAO em 24/01/2017; e
  • Voar em pequenas aeronaves é seguro? em 24/11/2015.]

Por que a segurança de “aviões pequenos” não é a mesma dos “aviões grandes”? – Ou: muito prazer, senadores, eu sou a Parte II do Anexo 6 da ICAO

Informa o Portal do Senado que “o vice-presidente da Comissão Especial do Senado que examina o projeto que institui o Código Brasileiro de Aeronáutica, senador Pedro Chaves (PSC-MS), vai pedir a realização de audiências públicas para debater a segurança de voo dos pequenos aviões”. Ótima notícia! O que mais a aviação geral precisa é disso: de espaço para debates! Mas por que a segurança de “aviões pequenos” não é a mesma dos “aviões grandes”, afinal de contas?

Bem… Em primeiro lugar, porque a própria ICAO assim o determina. Está lá no Annex 6 – Part II, vide abaixo:

an6

Isto é: não se espera que o nível de segurança da aviação geral (de pequeno porte, especialmente) seja o mesmo da linha aérea. O que não significa, é claro, que a operação deva ser feita de qualquer maneira, sem preocupação alguma com regras, etc. Mas, por definição, não é a mesma abordagem, conceito que os senadores precisam conhecer.

Voar em pequenas aeronaves é seguro?

O site Disciples of Flight publicou um ótimo artigo ontem com a questão do título desta página: “Is Flying Small Aircraft Safe?“. Acho que esta é a pergunta mais importante que existe na aviação de pequeno porte em qualquer lugar do mundo, e a resposta lato sensu é válida universalmente também: “Ela pode ser [segura]. Mas ela também pode ser EXTREMAMENTE arriscada” (no original: “It can be. It can also be EXTREMELY risky“). Acho que vale a pena explorar esse assunto da segurança das “pequenas aeronaves” (isto é, com MTOW<12.500lbs ou 5.670kg, de acordo com a definição do RBAC-01) um pouco mais do que está no artigo da DoF. Não pretendo esgotar o assunto neste post, pelo contrário: a ideia é somente provocar a discussão.

Em primeiro lugar, por que diferenciar as aeronaves pequenas das grandes? O artigo traz um dado interessante: em aproximadamente 3/4 dos acidentes com pequenas aeronaves não há mortos ou feridos graves. Ele não cita as estatísticas das grandes, mas é evidente que a letalidade dos acidentes com aeronaves maiores é muito pior – ou seja: não há margem para erro na operação de grandes aeronaves (entenda bem: não se está afirmando aqui que o risco da aviação de grande porte é maior, mas sim que, uma vez que o acidente tenha ocorrido, é mais provável que as pessoas morram ou fiquem gravemente feridas neste segmento). E, talvez, justamente pelo segmento de menor porte “aguentar mais desaforo” seja mais complicado de gerenciar seu risco: como se sabe que uma pane numa aeronave pequena tende a ser pouco letal, pode ser que as pessoas não se importem tanto com a manutenção, por exemplo – e, no sub-segmento das aeronaves “muito pequenas” (ultraleves, LSAs, etc.), isso tende a ser ainda mais grave.

O artigo diz que a operação com aeronaves pequenas pode ser segura se o piloto tiver tal comportamento, tal conhecimento, etc. Isso é verdadeiro (tanto nos EUA quanto no Brasil), mas eu acho que é preciso levar em conta a atuação de outros personagens também. Houve um acidente com um Cirrus alguns anos atrás em Jacarepaguá em que o abastecedor se confundiu e colocou querosene ao invés de gasolina de aviação. É claro que o piloto deveria ter acompanhado o abastecimento, mas não há dúvidas também de que o abastecedor deveria estar mais bem preparado para a função. Então, eu ampliaria os “IF a pilot” do artigo original (IF a pilot has the knowledge, IF a pilot has the fundamental skills, IF a pilot respects the environment he/she is operating in, IF a pilot does not “cut corners” or take on a cavalier attitude, IF the pilot takes good care of the machine…“) para englobar também estes outros atores da operação aeronáutica de pequeno porte, em especial os envolvidos com a manutenção – e, no caso da aviação “experimental”, os montadores/fabricantes.

Enfim, voar em pequenas aeronaves é seguro? Em quais condições? E nas “muito pequenas”? Esta é a discussão que interessa.

Comentários da época

Por que a segurança de “aviões pequenos” não é a mesma dos “aviões grandes”? – Ou: muito prazer, senadores, eu sou a Parte II do Anexo 6 da ICAO

  1. Enderson Rafael

    1 ano ago

    exatamente o que eu acho. O meio nao ajuda, mas o que mata é o amadorismo. Qq aviacao feita de forma profissional eh segura. Eu nao vou arriscar minha vida soh pq o regulamento ou a agencia nao estao no meu pé.

  2. Augusto Fonseca da Costa
     1 ano ago

    Folgo em saber que se discutirá segurança em audiências de fato públicas no senado, porque na ANAC foi criada uma excrescência chamada audiência pública por escrito, sem a participação presencial e oitiva dos maiores interessados, os usuários, pilotos e proprietários de aeronaves, sem debates, e sem contraditório. Temos provas de um caso que ilustra bem esse absurdo: na regulação da aviação “experimental”, a audiência pública só contou com a participação da indústria e seus aliados, sem o consumidor, e com a presença da ANAC, justamente o órgão regulador, apenas como OUVINTE. Deu no que deu: captura do regulador pelos regulados, que legislaram em causa própria e isentaram a indústria de cumprir normas de segurança sem o conhecimento dos consumidores e ao arrepio da Lei. Ver RF A-003/CENIPA/2015 pelo link http://prevencao.potter.net.br/detalhe/52976/PUPEK

  3. Fábio Otero Gonçalves
     1 ano ago

    Há várias razões, tipo: (1)- “Meeoo, C é lookooo!!! Aqui não é a linha aéreaa!!!” (2)- “Pôô, assim vai inviabilizar, numa dessas o homem vende o aviãoo!!!” (3)- “Vai querer ser mais real do que o Rei? Aqui é o Braziiuuu!!!” (4)- “Pô, Cte!!! Com todas essas décadas de linha aérea, o Sr. vai refugar um voo mixuruca desses, no ‘jatinho’? Veja bem…” Não estou generalizando, mas – no mais das vezes – é por essas e outras (marco regulatório pífio / inconsistente, infraestrutura em ruínas, más condições de trabalho, treinamento proforma e por aí vamos). Só trazer avião com “avionics” de última geração não adianta. Ou dá-se um upgrade na mentalidade, ou assume-se o gosto de “viver perigosamente”.

  4. Beto Arcaro
     1 ano ago

    Exato!
    RBAC91, FAR91, ou enfim, a parte 91 de qualquer regulamentação aeronáutica.

Voar em pequenas aeronaves é seguro?

  1. A.M.Filho

    2 anos ago

    Muito boa essa discussão. Acredito que a aviação pode operar em um nível de segurança similar independente do porte. A diferença ocorre que enquanto a grande aviação possui uma padronização global muito forte, a aviação pequena fica muito mais sujeita a iniciativas individuais de seus operadores e pilotos.

  2. Enderson Rafael
     2 anos ago

    Escrevi sobre isso uma vez (“Quando andar de carro é mais seguro que voar de avião”, no Canal Piloto) e aviões leves conseguem ser bem mais perigosos que carros. Mas a letalidade dos acidentes com aviões maiores também é baixa, viu…

  3. Lage
     2 anos ago

    Conheci a aviação Brasileira em 2011 quando visitei o aeroporto SBMT, de lá pra cá, me formei PCH + INVH, fiz cursos extras no fabricante da ACFT que voou e trabalhei em evento aeronáutico renomado do setor. Não tenho profundo conhecimento da aviação em nosso país, principalmente, se for comparar como era antes e como é agora. Por outro lado, o pouco que conheci eu já consigo identificar problemas graves na aviação de pequeno porte. Recentemente, eu fui consultado por um amigo sobre um voo que ele gostaria de fazer entre duas cidades pequenas do nosso Brasil, o meu conselho a ele foi “faça o trajeto de carro” pois onde você pretende voar eu não voaria. Porque ? Se em São Paulo falta fiscalização do ESTADO Brasileiro, imagina em cidades de menor porte ?