Um efeito colateral do recente acidente com o B737 da Southwest, que sofreu a perda de um motor e uma descompressão súbita recentemente, foi o retorno da discussão sobre mulheres atuando como pilotos* após a revelação de que a "heroína com 'nervos de aço'" Tammie Jo Shults fora a comandante daquele voo. "Ah, deve ser porque aquela era uma mulher especial, afinal ela era uma ex-piloto de caça da Marinha, treinada para situações de guerra". Hmmm... Será que uma piloto "comum", formada numa escola de aviação civil, acabaria por derrubar aquele Boeing se passasse por uma emergência como aquela? A resposta com 100% de certeza é impossível, uma vez que seria necessário ocorrer outro acidente idêntico com uma piloto formada em escola civil para se saber - e, mesmo que isto acontecesse, ainda assim não seria uma prova definitiva. Mas, em tese, não vejo motivo para que qualquer outra piloto (ou outro piloto) não pudesse obter o mesmo resultado da Cmte Tammie - mesmo porque a emergência nem foi tão complicada assim (e, cá entre nós, não acho que tenha sido o caso de chamá-la de "heroína").

*Obs.: Pode-se usar tanto "piloto" quanto "pilota" para referir-se ao feminimo de piloto, mas prefiro a primeira opção por questões estéticas e, principalmente, para evitar confusões com o verbo pilotar, como em "a pilota pilota o avião".

Mas o ponto que importa discutir neste caso é: uma mulher no comando de uma aeronave é um fato positivo, negativo ou neutro em termos de segurança de voo?

Embora acredite que qualquer ser humano normal em termos médico-psicológicos esteja, em princípio, apto a comandar uma aeronave desde que corretamente treinado e avaliado, também acho que as características comportamentais femininas sejam positivas para a segurança de voo. Foi o que disse neste artigo, por sinal:

Se pararmos para pensar, as mulheres tem muito mais chances de serem boas pilotos que os homens. Primeiro, porque em geral são mais detalhistas e perfeccionistas. Depois, porque (também no geral) são menos arrojadas que os homens, e seria muito mais difícil encontrarmos uma mulher pilotando de maneira arriscada, assim como são raras as mulheres tirando rachas com automóveis. E, em terceiro lugar, justamente por haver preconceito contra elas, que as mulheres tendem a ser muito mais cuidadosas, já que qualquer deslize cometido por uma mulher ficaria mais visível. Eu preferiria entrar num avião comercial pilotado por uma mulher, sem dúvida nenhuma!

Claro que existem muitos homens com estas mesmas características acima. Porém, observando os relatórios de acidentes aeronáuticos, é fácil perceber a presença de diversos traços marcadamente masculinos nas análises comportamentais dos pilotos protagonistas de acidentes, como a impulsividade e a invulnerabilidade. Indo exatamente neste sentido, vejam este trecho da excelente reportagem produzida pela Bloomberg e traduzida e publicada pelo portal UOL Economia - "Por que empresas aéreas precisam de mais mulheres pilotos":

A habilidade de pilotar um avião comercial moderno representa, em grande parte, a capacidade de tomar boas decisões sob estresse. Diversos estudos ao longo dos anos mostraram que as mulheres têm tempos de reação mais rápidos que os homens e tendem a correr menos riscos, qualidades que todos gostaríamos de ver em nossos pilotos.

Neste mesmo artigo, há diversas considerações sobre os motivos que fazem com que tão poucas mulheres atuem como pilotos, essencialmente culturais. O velho argumento das mulheres serem mães de família e, portanto, "não poderem passar muito tempo fora de casa", também é questionado no texto com o contra-exemplo das comissárias de bordo, que são mais de 50% dos profissionais que atuam na função apesar destas terem o mesmo "problema" das pilotos. Mas uma coisa é fato: as mulheres pilotos são sempre minoria, o que é explorado neste outro artigo, agora da Panrotas: "Quais aéreas têm mais mulheres em seu quadro de pilotos?".

Daí, chegamos a um quadro um tanto quanto contraditório. As mulheres seriam, em princípio, pilotos mais seguras do que os homens, o que certamente as colocaria em vantagem nas contratações - mais ou menos como os atletas mais altos teriam vantagens sobre os mais baixos para serem admitidos como jogadores de basquete. Porém, contrariando esta "vantagem natural", a participação feminina nos quadros de pilotos é ínfima - mesmo que a suposta desvantagem causada por questões familiares não se verifique no caso das comissárias, que igualmente passam boa parte do tempo distante da família.

Portanto, faz sentido que mulheres pilotem aeronaves. Porém, apesar disso, elas continuam sendo extremamente raras nos cockpits. Não acredito que seja por uma questão de tradição, somente - especialmente num mercado tão competitivo quanto a aviação, em que sempre se busca por mais eficiência e segurança. Deve haver algo a mais influenciando a falta de mulheres atuando como pilotos. Acho que é preciso entender melhor este assunto.