Diz-se que o besouro só voa porque é completamente ignorante em aerodinâmica; se conhecesse alguma coisa da teoria da Física que sustenta seu voo ele nem tentaria. E observando o animal que ilustra este post é realmente difícil de acreditar que um bicho grande, pesado, feio, desengonçado, e com asas pequenas e frágeis como aquele possa sair do chão. Mas o fato é que ele voa!

De maneira análoga, é de se esperar que uma pessoa sem muitos recursos financeiros também não tenha como se tornar piloto de aeronaves – afinal, além de cara, praticamente não há subsídios, bolsas e nem mesmo opções de financiamento na formação aeronáutica. Apesar disso, eu conheço incontáveis exemplos de pessoas que atuam como pilotos profissionais que vieram de famílias muito pobres. Sim, muitas destas se beneficiaram de incentivos à formação de pilotos do antigo DAC, outras ganharam bolsas da ANAC (o último programa foi em 2011), e há os que vieram das Forças Armadas; mas vários outros conseguiram chegar lá sem nada disso, puramente “na raça”.

Conheço um sujeito que trabalhou como garçom e poupou metodicamente suas gorjetas por 10 anos, até ter todo o dinheiro para o PP e PC. Outro que passou vários anos trabalhando como motoboy na Inglaterra e fez uma poupança em Libras Esterlinas. Tem quem virou vendedor de semi-jóias aos finais de semana, o que abriu um quiosque de café e pão-de-queijo num shopping popular, o que se tornou feirante, outro que arrumou emprego de camareiro em navio de cruzeiro, vários que começaram a dirigir para a Uber… E, claro, uma grande parte que conseguiu uma colocação em empresa de aviação (ou operadora de aviões particulares), inclusive em aeroclubes e escolas de aviação, que deu um jeito de voar nas aeronaves do patrão; ou então ingressou na linha aérea como mecânico, comissário, despachante, e depois migrou para o cockpit. Enfim, cada caso é um caso.

Também conheço muita gente “raçuda” que tentou ser piloto de todo jeito e não conseguiu, seja por condições pessoais e familiares complicadas, seja por dar azar de pegar um momento muito ruim da Economia ou da aviação – e, sim, além de “raça”, obstinação, disciplina, planejamento e foco, também é preciso ter sorte! Por outro lado, conheço diversos casos de pessoas que não conseguiram realizar o sonho de ser piloto profissional justamente por serem ricas, por mais estranho que isso possa parecer. Mas explicar por que isso ocorre nos levaria a um desvio do foco deste post, que já vai ser bastante longo pelo ‘causo’ que virá em seguida, então deixemos para explorar este aspecto numa outra oportunidade… Vamos tratar de um caso em particular que, acredito, irá revelar mais sobre por que não precisa ser rico para ser piloto do que qualquer outra consideração que eu possa fazer.

O texto acima foi publicado num post do final de 2017, para introduzir a impressionante história do Neto Almeida, colaborador do blog – ele é autor da seção “Quem sou eu?”. Ontem, o Portal EJ publicou um artigo sobre um outro “besouro”, o Paulo, que também merece ser conhecida: Ele trabalhava na roça e agora vai pilotar Airbus. Acho que vou criar uma seção de artigos aqui no blog só para tratar dessas histórias, para desmistificar de vez essa lenda de que a profissão de piloto só é acessível para “riquinhos”.