Hoje comemoramos o aniversário de Santos Dumont, um dos brasileiros mais notáveis que o país já teve. Se o Brasil tivesse produzido mais uma meia dúzia de pessoas como ele em diferentes áreas do conhecimento no decorrer do século XX, seríamos hoje um dos países mais avançados do mundo. A prova disso é o “outro Santos Dumont” que o Brasil conheceu, coincidentemente também na aviação, o Eng. Ozires Silva, que nos fez a terra de uma das mais importantes indústrias aeronáuticas do planeta. O que lamento é que ele se tornou conhecido quase que somente pelo 14-Bis, o que levou à disputa idiota sobre “quem é o inventor do avião: Santos Dumont ou os Irmãos Wright”, eclipsando seus outros feitos, muito mais importantes.

O fato é que o Santos Dumont não inventou o avião. O 14-Bis de 1906 estava mais para uma prova de conceito utilizada para ganhar o concurso do Aeroclube de Paris, e os irmãos Wright voaram em uma aeronave que decolou pelos próprios meios em 1905, o Flyer III (o Flyer original de 1903, aquele da catapulta, também era uma mera prova de conceito). Mas nem ele, nem os Wright foram os primeiros a voar com um equipamento mais pesado que o ar. Gustave Whitehead já havia feito isso na prática em 1901/1902, e se alguém realmente pode ser chamado de inventor do avião, o nome mais indicado seria o do Sir George Cayley, que publicou um ensaio de engenharia sobre como construir uma aeronave em 1852. Isso, entretanto, não tira o mérito do nosso Pai da Aviação.

Primeiro, porque Santos Dumont fez imensos avanços tecnológicos com seus dirigíveis anteriores ao 14-Bis, o que foi importantíssimo para o início da aviação – na verdade, o 14 só é bis porque o 14 original tinha um balão acoplado, o que mostra a importância dos aeróstatos no início do século XX. Segundo, porque seu Demoiselle (o da imagem acima) foi o primeiro avião realmente utilizável a ser produzido, que ele popularizou por meio da distribuição gratuita de sua planta com instruções de montagem. Estes dois fatores revelam a verdadeira importância do Santos Dumont no desenvolvimento tecnológico da aviação e na sua popularização, não o fato de ter vencido um concurso em Paris. Aliás, concurso por consurso, o Prêmio Deutsch que ele ganhou em 1901, por circundar a Torre Eiffel com um dirigível, foi muito mais importante.