Quantas aeronaves há no Brasil? Parece uma pergunta fácil, né? Ledo engano...

Consultando o RAB-Registro Aeronáutico Brasileiro da ANAC, encontramos 29.310 aeronaves com matrícula brasileira (dados de junho/2018). Ocorre, porém, que nem todas estas realmente existem (muitas já foram vendidas para o exterior, outras foram acidentadas ou não são recuperáveis, etc.), há as que não estão em condições de aeronavegabilidade (IAM e/ou CA vencidos), e é preciso considerar que existem também as experimentais e os planadores, que não são pilotados por pilotos profissionais (sim, eu sei que há aeronaves experimentais que são pilotadas profissionalmente, mas considero que esta é uma exceção que pouco influiria neste estudo). Então, se quisermos chegar a um primeiro número que faça sentido em termos de empregabilidade (quantidade de aeronaves que poderiam contar com piloto profissional), teríamos 9.418 aviões e helicópteros certificados, com IAM e CA válidos. Este é o nosso ponto de partida.

Mas, destas, quantas seriam as aeronaves realmente pilotadas por pilotos profissionais (PCs e PLAs)? Há, é claro, casos em que o piloto é o próprio operador/proprietário - em sua maioria, aviões e helicópteros a pistão, das classes MNTE, MLTE e HMNC. Também há uma parte das aeronaves que simplesmente não estão sendo pilotadas por ninguém, seja porque estão à venda, ou porque estão paradas por falta de necessidade, ou por qualquer outro motivo (manutenção prolongada, documentação em processo de regularização, etc.). E, em relação à frota pilotada profissionalmente, há diferenças significativas quanto ao uso de tripulação, seja pelo tipo de operação (linha aérea, táxi aéreo offshore & convencional, agrícola, privada, instrução, SAE), seja pelos requisitos de aeronavegabilidade e regulamentação (aeronaves single-pilot ou multicrew e uso de tripulação composta ou de revezamento para voos internacionais), ou mesmo pelas preferências do operador (aeronaves single-pilot que utilizam dois pilotos em suas operações).

Por isso, vamos precisamos arbitrar alguns números daqui para a frente, e para isso levaremos em conta a metodologia IEP, que eu desenvolvi em 2015*, que converte "aeronaves" em "vagas de trabalho para pilotos" - considerando tanto as necessidades da operação acima descritas quanto a quantidade de tripulações necessárias para atender ao uso das aeronave. A diferença é que o IEP visa captar o "movimento", ou seja: seu objetivo é entender como se dá a relação entre novos pilotos profissionais ingressando no mercado de trabalho e a evolução da frota de aeronaves matriculadas no Brasil ano a ano - trata-se de um "filme da empregabilidade"; enquanto que, agora, iremos tirar uma "fotografia do mercado" em junho de 2018. Naquele contexto, não havia muito problema se os "fotogramas" fossem um pouco desfocados, pois o movimento era o que interessava. Mas, agora, não: a "imagem" requer mais precisão - e isso, infelizmente, será difícil de obter, já que iremos nos basear em aproximações construídas com números arbitrários. Mas, vamos lá, é melhor que nada.

*Obs.: O IEP deixou de ser atualizado porque a ANAC mudou os critérios de confecção dos relatórios anuais de frota que vinham sendo publicados até 2017. Estamos trabalhando na reformulação da metodologia para lidar com os diferentes formatos de dados atualmente disponíveis.

Vagas para pilotos de avião

1. Linha aérea regular (passageiros e carga):

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 486
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 5% = 24 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 462
    • (x) tripulantes por aeronave: 12 (6 cmtes e 6 cops.)
    • (=) Vagas para pilotos: 5.544

2. Táxi aéreo - jatos:

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 71
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 8% = 6 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 65
    • (x) tripulantes por aeronave: 5
    • (=) Vagas para pilotos: 325

3. Táxi aéreo - turbo-hélices e aviões a pistão:

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 295
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 8% = 24 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 271
    • (x) tripulantes por aeronave: 3
    • (=) Vagas para pilotos: 813

4. Av. agrícola (somente SAE):

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 1.003
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 10% = 100 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 903
    • (x) tripulantes por aeronave: 1
    • (=) Vagas para pilotos: 903

5. SAE (não-agrícola):

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 53
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 10% = 5 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 48
    • (x) tripulantes por aeronave: 1,25
    • (=) Vagas para pilotos: 60

6. Instrução:

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 757
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 20% = 151 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 606
    • (x) tripulantes por aeronave: 4
    • (=) Vagas para pilotos: 2.424

7. Privada - jatos:

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 549
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 1% = 5 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 15% = 82 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 462
    • (x) tripulantes por aeronave: 3
    • (=) Vagas para pilotos: 1.386

8. Privada - turbo-hélices (mono & bimotores): 

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 704
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 3% = 21 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 15% = 105 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 578
    • (x) tripulantes por aeronave: 1,5
    • (=) Vagas para pilotos: 867

9. Privada - bimotores a pistão:

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 1.090
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 8% = 87 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 20% = 237 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 766
    • (x) tripulantes por aeronave: 1,25
    • (=) Vagas para pilotos: 957

10. Privada - monomotores a pistão:

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 2.962
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 20% = 592 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 20% = 592 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 1.778
    • (x) tripulantes por aeronave: 1
    • (=) Vagas para pilotos: 1.778

11. Operadas pelo Estado (civis de seg. pública e transp. autoridades):

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 75
    • (-) % operado por serv.estatut. (PMs, servidores públ., etc.): 50% = 37 aviões (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 20% = 15 aviões (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 23
    • (x) tripulantes (civis particulares) por aeronave: 2
    • (=) Vagas para pilotos: 46

Total de vagas efetivas para pilotos de avião: 15.103

Pilotos profissionais habilitados regularmente: 11.358 PCAs e 6.827 PLAAs - total: 18.185

⇒ Excesso de pilotos profissionais no mercado de trabalho: 3.082

⇒ (Excedente / Total): 17%

Vagas para pilotos de helicóptero

1. Táxi aéreo off-shore:

  • Qtd de helic. em condições de aeronavegabilidade: 117
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 8% = 9 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 108
    • (x) tripulantes por aeronave: 5
    • (=) Vagas para pilotos: 540

2. Táxi aéreo convencional:

  • Qtd de helic. em condições de aeronavegabilidade: 134
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 8% = 11 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 123
    • (x) tripulantes por aeronave: 2
    • (=) Vagas para pilotos: 246

3. SAE (inclui agrícola):

  • Qtd de helic. em condições de aeronavegabilidade: 47
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 8% = 4 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 43
    • (x) tripulantes por aeronave: 2
    • (=) Vagas para pilotos: 86

4. Instrução:

  • Qtd de helic. em condições de aeronavegabilidade: 79
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 15% = 12 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 67
    • (x) tripulantes por aeronave: 4
    • (=) Vagas para pilotos: 268

5. Privada - TIPO e HMLT:

  • Qtd de helic. em condições de aeronavegabilidade: 179
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 0% = 0 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 15% = 27 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 152
    • (x) tripulantes por aeronave: 2
    • (=) Vagas para pilotos: 304

6. Privada - HMNT e HMNC:

  • Qtd de helic. em condições de aeronavegabilidade: 677
    • (-) % operado pelo próprio operador/proprietário: 5% = 34 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 20% = 135 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 508
    • (x) tripulantes por aeronave: 1
    • (=) Vagas para pilotos: 508

7. Operadas pelo Estado (civis de seg. pública e transp. autoridades):

  • Qtd de aviões em condições de aeronavegabilidade: 142
    • (-) % operado por serv.estatut. (PMs, servidores públ., etc.): 60% = 85 helic. (A)
    • (-) % não utilizado (à venda, em manut. prolongada, etc.): 10% = 14 helic. (B)
    • (=) qtd inicial - (A) - (B): 43
    • (x) tripulantes (civis particulares) por aeronave: 2
    • (=) Vagas para pilotos: 129

Total de vagas efetivas para pilotos de helicóptero: 2.081

Pilotos profissionais habilitados regularmente: 2.581 PCHs e 1.157 PLAHs - total: 3.738

⇒ Excesso de pilotos profissionais no mercado de trabalho: 1.657

⇒ (Excedente / Total): 44%

Conclusão: está realmente sobrando pilotos no Brasil?

Embora os números acima sejam baseados em aproximações (e o leitor pode e deve ficar à vontade para modificar os parâmetros que eu coloquei e calcular seus próprios números!), ao que que parece está, sim, sobrando pilotos no país - especialmente se levarmos em conta os pilotos com licença de PC e PLA que não estão com suas licenças e/ou CMA em dia, mas que podem reingressar no mercado sem muita dificuldade, caso haja demanda (informação que não temos, por sinal). Porém, com os dados disponíveis - que não fazem distinção quanto à qualificação destes profissionais, nem a suas demais características, como a idade -, não é possível chegar a conclusões mais apuradas sobre a real situação do mercado do trabalho, muito menos fazer previsões sobre o que poderá acontecer no futuro.

Para o segmento de asa rotativa, o excesso de pilotos é realmente muito grande, e acho bastante improvável que haja um "apagão de pilotos de helicóptero" no mercado brasileiro no médio prazo. Mas, para a aviação de asa fixa, um excedente de 17% (ou aproximadamente 3mil profissionais) pode não ser suficiente para as necessidades futuras da aviação brasileira, dependendo do comportamento do mercado, da capacidade de formação de pilotos do país, e principalmente da qualificação dos pilotos que estamos formando. Não acho difícil enfrentarmos dificuldades para manter nossa frota de aviões voando no médio prazo, para ser sincero.