As recentes mudanças nas regras para registro de horas de voo na CIV digital revelaram problemas extremamente graves na formação de pilotos realizadas nos aeroclubes e nas escolas de aviação brasileiras. Um já era bem conhecido, muito embora todo mundo fingisse não ver o elefante na sala: as 10h de voo solo no curso de PP – na maior parte das vezes, total ou parcialamente fictícias. A questão é que, agora, o INVA que realizar o famoso “voo solo assistido” deverá lançar as horas como “instrutor de voo em solo”, definido na IS 61-001B como uma “função exclusiva para um instrutor de voo devidamente habilitado e qualificado pela ANAC ministrando instrução prática de voo posicionado em solo, isto é, fora da aeronave” (grifo do original). Portanto, de agora em diante, o INVA será obrigado a descumprir o regulamento de maneira muito mais enfática para que o aluno possa obter as horas de voo solo. Será que isso vai inibir a prática do “voo solo assistido”? Veremos…

Outra questão que era bem menos evidente, entretanto, também veio à tona: as horas em comando do aluno de PC, na prática tão fictícias quanto os voos solo, muito embora formalmente regulares – o aluno assina o FPL e lança no Diário como PIC, etc., mas quem é o comandante, de fato, costuma ser o INVA. Uma vez que o aluno de PP não voou solo de verdade e obteve sua licença de PP “nos mínimos”, independente de sua proficiência, em boa parte dos casos ele efetivamente não possui capacidade para efetuar um voo em comando de maneira segura na etapa seguinte de seu treinamento – os voos PIC do curso de PC. É por isso que os INVAs estão reclamando tanto por não poderem mais anotar suas horas voadas com alunos na etapa inicial da instrução de PC: os instrutores realmente são indispensáveis nesta fase! Mas isso ocorre por uma distorção no processo de formação do PP, este é que é o problema.

A licença de Piloto Privado deveria ser a garantia de que seu detentor possui a capacidade para, sozinho, efetuar um voo de maneira segura e regular com uma aeronave “básica” (a utilizada na instrução): um avião MNTE ou um helicóptero HMNC. Se este sujeito precisa de um INVA ao lado para garantir sua própria segurança e a de outras aeronaves e pessoas e bens em solo, a conclusão é que este piloto não estava preparado para obter sua licença. Portanto, o problema está na formação básica do PP, que não está ocorrendo conforme deveria. Os INVAs, quando a bordo (lembrando que, em boa parte dos casos, os alunos de PC nunca voam solo também), deveriam somente avaliar e corrigir seus alunos, nunca ser um tripulante indispensável como, de fato, costumam ser.

Ao contrário do que possa parecer, não estou criticando os INVAs (ontem, um leitor escreveu que eu “demonstro um certo ódio a eles”!). Na realidade, os instrutores são tão vítimas quanto os alunos… O processo de formação é que está errado, com voos solo e PIC “só para constar” e a concessão de licenças de maneira automática, quando o aluno atinge o mínimo requerido pelo regulamento.