Recentemente, tivemos mais um caso de uma aeronave de linha aérea pousando em uma pista errada aqui no Brasil. Casos (muito) parecidos com esse já ocorreram anteriormente, inclusive no exterior, e não são raros*. Não só existe o pouso em pista errada, como também o pouso em aeródromo errado! Principalmente em locais onde há muitos aeroportos próximos uns aos outros, ou em aeródromos que possuem múltiplas pistas, esse risco está sempre presente.

Mesmo em lugares que contam com apenas uma pista de pouso, existe o risco de o piloto se confundir e aproximar para a cabeceira oposta. Isso se agrava em locais com superfície de grama ou terra que não tenham a marcação do número da pista na cabeceira. Eu mesmo já vivenciei algumas situações na aviação geral onde houve confusão por parte de algum tráfego em aproximação. Mas nada se compara à uma experiência ímpar que tive durante um voo de instrução, e que vou contar a seguir:

Meu aluno e eu chegávamos pelo norte para um treinamento de TGLs em Alto Paraíso (SDXF). Após termos feito os preparativos para a descida e o check pré-pouso, nos aproximamos da pista e observamos que a biruta indicava o vento favorável ao uso da cabeceira 09. Bastou uma curva à direita e meu aluno ingressou na perna-do-vento. Tudo transcorrendo normalmente, ingressamos na final, fazendo a coordenação de fonia na frequência livre. Não havia mais nenhuma outra aeronave operando no aeródromo naquele momento. Pouco antes de cruzar a cabeceira, observei os números pintados no asfalto e fiquei pasmo: era a pista 27! Imediatamente olhei para o HSI e a bússola para confirmar a nossa proa, mas estávamos de fato voando na direção E, ou seja, 090 graus. Como a pista estava livre e não havia ninguém mais voando ali naquele momento, deixei que o aluno prosseguisse com seu toque-e-arremetida.

Logo após retomarmos o voo, comecei a fazer um rápido troubleshoot para tentar identificar o ocorrido. Teríamos nos aproximado da pista errada? Se viemos pelo norte e ingressamos direto na perna-do-vento da 09 sem cruzar o campo, teria sido impossível pousar na pista 27. Minha ideia de localização estava correta então. Além disso, tanto o GPS quanto a bússola da aeronave confirmavam nosso senso de orientação. Logo, concluí que a única hipótese plausível era a de que a cabeceira havia sido pintada erroneamente. E estava! Depois daquele voo fui pesquisar e descobri que, durante muitos anos, a pista de SDXF permaneceu pintada com as numeração das cabeceiras invertida, sem que houvesse qualquer tipo de NOTAM ou aviso prévio aos pilotos. Veja as imagens abaixo, obtidas pelo Google Earth, dos anos 2013 e 2016 respectivamente:

No momento em que avistei o número “27” enquanto imaginava estar pousando na “09”, minha cabeça ferveu e tive a sensação de total perda de consciência situacional. Depois do voo, ficou claro para mim e para o meu aluno que não houve erro da nossa parte. Mas a confusão daquele dia me deixou muito mais alerta para a possibilidade de me aproximar para uma pista errada sem perceber. Hoje associo essa experiência ao aprendizado do SRM, e aproveito para deixar algumas dicas para minimizar o risco de acabar pousando em uma pista (ou mesmo em um aeródromo) errados:

  • A preparação para a descida é essencial. Um bom briefing de cartas e de aproximação vai fazer com que o piloto crie uma ampla consciência situacional, antevendo os eventos que irão ocorrer até o momento do pouso, e criando uma “visão” antecipada do layout do aeroporto de destino. Visualize o diagrama do aeroporto, o setor de sua chegada, etc.
  • Mesmo se for fazer uma aproximação visual, sintonize os auxílios disponíveis no aeródromo para ter uma indicação constante de sua posição através dos instrumentos. Isso aumenta seu senso de direção e localização.
  • Se sua aeronave possuir GPS com função OBS, um ajuste de acordo com a direção da pista pode ajudar na sua localização em relação à final a ser voada.
  • Caso a sua aeronave possua ferramentas como ChartviewSafetaxi ou similares, faça uso extensivo delas para maximizar sua consciência situacional.
  • Quando estiver se aproximando de um aeródromo controlado, faça todos os cotejamentos por completo, para dar a chance ao controlador de perceber quaisquer erros ou confusões por sua parte. Se estiver voando em um aeródromo não-controlado, preste atenção à coordenação das outras aeronaves que possam estar voando contigo no circuito ou em solo. Se aparecerem dúvidas, pergunte!
  • No reporte de aproximação final, diga por extenso a pista pretendida para pouso e, se for o caso, o nome do procedimento de aproximação.
  • Ao ingressar na final, quando visual com a pista, faça um crosscheck com a bússola/HSI para verificar se a proa voada é condizente com a orientação da pista.
  • Confirme os números desenhados na cabeceira assim que conseguir identificá-los.
  • Na dúvida, arremeta!

Em tempo: assim como a possibilidade de um pouso em pista errada, existe também o risco de uma decolagem de pista errada. Existem vários casos interessantes a serem estudados aqui (um dos mais famosos é o do voo Singapore 006), principalmente no âmbito da aviação comercial regular. Esse assunto vai ser tratado futuramente aqui no Safety Tips.

* Experimentem ir ao avherald e pesquisar por “wrong runway” ou “wrong airport”. Vocês vão ver que existe uma ampla literatura de casos reais a respeito. Bons voos!