Estive de papo com um amigo sobre alguns casos de acidentes e incidentes onde os pilotos envolvidos optaram por operar em condições que iam além da sua zona de atuação segura. A conversa me fez lembrar do chamado “círculo de competência”, um conceito desenvolvido pelos investidores americanos Warren Buffet e Charlie Munger para definir uma área que engloba as habilidades e o conhecimento de uma pessoa. Em resumo, é o seguinte: o que está dentro do círculo de competência, a pessoa domina; que está fora, a pessoa tem pouco ou nenhum entendimento.

Desde os tempos de aeroclube já falamos sobre o “envelope”, que é uma ilustração aeronáutica deste mesmo conceito. O envelope contém a zona de competência de um piloto, incluindo suas habilidades motoras e mentais, conhecimento técnico e operacional, etc. Este conceito remete aos princípios do SRM, pois, ao julgarmos as nossas próprias habilidades e nossos limites, estabelecemos nossos mínimos pessoais. Um piloto que tem uma boa avaliação de suas próprias limitações vai conseguir operar de maneira mais segura, pois não se permitirá ingressar em um cenário no qual as habilidades requeridas excedam a sua própria capacidade de atuação.

Pensei no conceito de círculo de competência como uma continuação da ideia do envelope, só que de maneira mais ampla. O círculo de competência, no âmbito da aviação, envolve diversos outros fatores como, por exemplo, as variações de características entre modelos de aeronaves, operações críticas em locais específicos, cenários meteorológicos diversos, gerenciamento das operações de acordo com as expectativas do proprietário, etc. O risco existe a partir do momento em que o piloto acha que o seu círculo de competência é maior do que o é na realidade, conforme mostra a imagem a seguir:

Talvez uma das aplicações mais importantes de todo esse conceito seja na especialização em um tipo de aeronave, em determinada operação. Eu mesmo estive envolvido em trabalhar, nos últimos quatro anos, no mesmo modelo de avião e hoje percebo nitidamente os limites de meu círculo de competência. Não são raras as histórias de pilotos que se aventuraram em modelos diferentes, muitas vezes sem o devido treinamento ou instrução, e que passaram por maus bocados. Mesmo entre tipos iguais, existem diferenças entre aviônicos, motorização, e sistemas, dentre outros, cujo entendimento é vital para um voo seguro. É por isso que toda transição para uma nova área (que pode ser um novo modelo de avião, uma nova função a bordo ou um novo tipo de operação, por exemplo) deve ser feita com calma e com um bom acompanhamento e instrução.

Vivemos na Era da Informação e, nos dias de hoje, tenho a impressão de que as pessoas sabem mais coisas sobre tudo. Só que com um nível cada vez menor de profundidade. Isso significa que temos cada vez menos especialistas. Na contramão desta realidade, eu considero importante que o conhecimento seja não amplo e raso, mas sim estreito e profundo. Gosto de tomar como exemplo uma lagoa e compará-la a um poço d’água. Não é fundamental saber alguma coisa sobre tudo; muito mais interessante é saber profundamente bem algumas poucas coisas. E então enxergar os limites desse conhecimento.

Disse Warren Buffet: “Encontre o seu círculo de competência e fique dentro dele. O tamanho do círculo não é tão importante. Já conhecer os seus limites é fundamental”. Muito mais importante do que possuir um monte de habilidades é saber os limites delas. O piloto seguro não é aquele que (pensa que) sabe de tudo, e sim aquele que trabalha sempre dentro de seu envelope, seja ele grande ou pequeno.