No recente processo seletivo para copilotos da Latam, aberto ontem, ter curso superior aparece como requisito mínimo obrigatório, diferente do último recrutamento, ocorrido um ano atrás, que tinha o diploma de faculdade apenas como um atributo “desejável”. Já nos processos seletivos da Gol e da Azul atualmente em andamento, o nível superior aparece como “diferencial” ou “requisito complementar”, sendo que esta última dá preferência aos formados em Ciências Aeronáuticas ou em Aviação Civil. Seria esta uma tendência da indústria? Daqui para a frente, só os diplomados terão chance na linha aérea brasileira? E este diploma terá que ser de algum curso e/ou faculdade específicos?

É tentador responder que só os formados em faculdades de aviação terão possibilidade de sucesso nos futuros processos seletivos das companhias aéreas. Mas, sendo muito sincero, tenho minhas dúvidas. Em mercados com elevada escassez de pilotos (EUA, Europa Ocidental, Oriente Médio e Ásia), a maior parte das companhias aéreas simplesmente ignora o diploma de nível superior nas suas seleções. Para estas, o que importa mesmo são as horas de voo, a experiência em linha aérea e/ou como PIC e/ou como piloto de aeronaves acima de determinados PMD’s, os ‘type ratings’ que o sujeito tem na carteira, a proficiência técnica e linguística, e a “recência” (tempo em que ocorreu o último pouso atuando em linha aérea). As companhias globais de primeira linha costumam dar preferência aos egressos de programas de cadetes ou aos formados em escolas renomadas como a L3-GAir, que oferecem uma formação aeronáutica similar ao das faculdades de aviação do Brasil. E os formados em faculdades de ponta como a Embry-Riddle terão muito mais chances em uma ‘major’ americana do que a média, sem dúvida. Mas eu não vejo o diploma universitário como um requisito obrigatório nestes mercados.

Na realidade, o próprio anúncio da Latam já traz uma boa dica sobre como as companhias aéreas vêem essa questão do nível superior para pilotos. Reparem que o diploma é obrigatório, mas quem tiver o ‘type rating’ do A320 tem o requisito “flexibilizado” – isto é: ter nível superior só é obrigatório mesmo para quem não tem o Airbus 320 na carteira. Isto mostra que, na verdade, ter ou não ter diploma depende muito mais do que a empresa considera ser mais conveniente em termos econômicos: no caso, uma redução de gastos com treinamento e/ou mais certeza de que o contratado obterá sucesso na obtenção do ‘type rating’. Num cenário de escassez de pilotos no Brasil, acho difícil que os requisitos obrigatórios de faculdade para copilotos persistam. Mas, vejam bem!, isto não significa que se deva abrir mão do nível superior, por vários motivos. Cito dois, para não me alongar:

  1. Limitação de carreira: pilotos sem faculdade terão muito mais dificuldade em ascender na carreira (ex.: tornar-se piloto chefe, diretor de operações, etc.); e
  2. Plano B: em uma eventual crise no setor (que, no Brasil, acontece de maneira cíclica), ou caso o aviador tenha problemas de saúde, por exemplo, o diploma universitário abre possibilidades fora do cockpit das aeronaves.

Portanto, não acho dispensável para um piloto ter um diploma universitário, muito pelo contrário! Aliás, com o crescimento da tecnologia de aeronaves autônomas, entendo ser bastante provável que parte dos pilotos de hoje se transformem em gestores de operações aéreas no futuro, especialmente em segmentos como os serviços aéreos especializados (aviação agrícola inclusive) e o transporte urbano de passageiros e cargas – e, para este novo tipo de profissional, deverá ser necessária uma formação teórica muito mais abrangente. Mas, mirando o curto/médio prazo, não acho que a formação em nível superior deva ser um requisito obrigatório nos processos seletivos para copilotos no Brasil, a não ser que a relação de oferta e demanda de profissionais se mantenha indefinidamente como está atualmente (ou seja: que o “apagão de vagas de trabalho” continue existindo indefinidamente). Ainda existe uma super-oferta de pilotos na aviação brasileira que deve persistir por mais algum tempo, mas na medida em que o mercado local se tornar mais parecido com o internacional, a necessidade de mão-de-obra deverá superar o luxo de exigir diploma universitário nas contratações.