No artigo sobre os cinco P’s, vimos o que um dos itens mais importantes para a segurança das operações é o planejamento do voo. Como pilotos da aviação geral/executiva, e principalmente em ambiente SRM, não temos um colega piloto ou DOV (despachante operacional de voo) que faça todo o trabalho de preparo conosco ou para nós. Portanto, é de suma importância que estejamos sempre atentos a estes precedimentos e que também nos atenhamos aos limites de cada aeronave conforme previstos nos manuais.

De maneira geral, um piloto de uma aeronave executiva precisa checar, antes de cada voo, os seguintes itens, no mínimo:

  • Meteorologia: para todos os aeródromos onde se pretende operar (aeródromo de partida, destino, alternados, e eventuais aeródromos em rota);
  • NOTAMs: para todos os aeródromos onde se pretende operar, TMAs e FIRs;
  • Publicações: AIP e ROTAER de todos os aeródromos onde se pretende operar;
  • Navegação: rota, nível de voo, consumo esperado;
  • Logística: apoio de solo, handling (FBO), disponibilidade e reserva de pátio ou hangar, pernoite, abastecimento, etc;
  • ATS: plano de voo, ISE’s aplicáveis, DLA, CHG, etc;
  • “Papelada”: documentação da aeronave, cartas aplicáveis, electronic flight bag (EFB), manuais e checklists, etc; e
  • Cálculos de performance da aeronave para decolagem, subida, monomotor, cruzeiro, e o peso & balanceamento.

Em uma operação single-pilot, todas essas atribuições recaem sobre o único piloto. É necessário bastante tempo para poder fazer esse trabalho de planejamento antes mesmo de se iniciar a inspeção pré-voo. Não é raro, portanto, acontecerem alguns voos onde algum item acaba “passando batido”, seja por pressa, desatenção, ou por excesso de carga de trabalho.

Eu mesmo já realizei algumas missões onde não foi possível planejar tudo antes de sair. É nítida a sensação de perda de consciência situacional ao longo de viagens assim. Para exemplificar, vamos dar uma olhada em um caso onde o planejamento do voo foi feito de maneira inadequada. As informações abaixo foram retiradas do Relatório Final Simplificado do PP-WGS – investigação realizada pelo CENIPA sobre o incidente grave (excursão de pista) ocorrido no pouso de um Cessna 510 no aeródromo de Ubatuba-SP (SDUB) em 29/12/2017:

…a aeronave estava acima do limite de peso para o pouso; as condições meteorológicas eram propícias à realização do voo, porém havia chovido no destino, algumas horas antes voo, e a pista estava molhada; o piloto realizou o cálculo de despacho operacional, no tocante à performance de pouso, tomando por base o checklist da aeronave, que não contemplava todas as informações necessárias; a distância de pouso demonstrada pelo fabricante, para aquelas condições, excedia o comprimento de pista disponível…

Vou agora destacar alguns trechos principais do RFS, e comentá-los sob a ótica do SRM:

O piloto relatou que, mesmo com a pista molhada, sentiu-se seguro para a realização do voo, pois tinha conhecimento de que a pista de SDUB possuía grooving, logo estaria prevenido contra uma eventual aquaplanagem no pouso.

O piloto relatou que se sentia à vontade com a distância disponível para o pouso em SDUB, pois já havia operado naquela localidade outras vezes, com aeronaves do mesmo modelo ou de modelos de performance semelhante. É possível que essa familiarização do piloto com aquela localidade tenha elevado sua confiança em relação às operações aéreas executadas em SDUB, favorecendo um rebaixamento do nível de consciência situacional acerca dos riscos existentes naquele voo.

Aqui, tem-se a soma de alguns fatores menores que, agregados, potencializam o risco da operação: aeronave pesada, vento de cauda, pista curta e molhada. A tomada de decisão foi baseada em experiências anteriores, mas que provavelmente não refletiam com exatidão o cenário atual do voo daquele dia em específico. A consciência situacional ficou prejudicada durante todo o voo já que, uma vez que o piloto colocou na cabeça que seria capaz de realizar o pouso, não mais questionou sua atitude durante a realização da viagem.

Para o cálculo de despacho do voo, com relação à performance de pouso, o piloto utilizava uma tabela contida no checklist da aeronave. Essa tabela, entretanto, contemplava apenas as variáveis de altitude da pista, de peso de pouso e de temperatura do ar, não levando em consideração a direção/intensidade do vento, o gradiente da pista e outras informações relevantes, como a inoperância de algum sistema da aeronave e a condição de pista molhada. Para o planejamento completo da performance de pouso, o piloto deveria ter se baseado no Manual de Voo da Aeronave (AFM).

…a distância de pouso demonstrada pelo fabricante, para as condições encontradas em SDUB, era aproximadamente 120 metros maior do que o comprimento de pista disponível.

Ainda sobre o planejamento de despacho do voo, concluiu-se que foi adotada uma postura bastante conservativa na determinação da quantidade de combustível. A quantidade abastecida excedia em, aproximadamente, 300lbs. o necessário para toda a rota que seria voada, mais combustível de contingência, o que afetou o peso e a distância de pouso em SDUB. É possível que a meteorologia instável do dia tenha influenciado nessa decisão.

Aqui também fica claro que o piloto abasteceu a aeronave com combustível em excesso. Neste caso, a mesma estava acima do peso máximo de pouso previsto no AFM. Essa atitude talvez seja explicada pelo fato de haver certa dificuldade do piloto single-pilot em organizar e coordenar abastecimento e prever as condições meteorológicas, inclusive para o voo de retorno. Pecar por excesso parece ser a solução que traz a menor carga de trabalho.

Na pressão do dia-a-dia, a operação single-pilot deve ser feita tendo em vista uma suficiente antecipação em relação ao início do voo, para que se possa fechar as portas da aeronave na certeza de que todos os itens foram analisados e cumpridos com segurança.

Em tempo: quero aproveitar o conteúdo deste post para elaborar uma “master checklist” para os voos da aviação geral, visando facilitar principalmente o trabalho dos pilotos single-pilot. Com a ajuda do Raul, irei coletar mais alguns itens e irei escrever mais sobre esse assunto em breve. Você tem alguma ideia sobre algum item pré-voo que eu esqueci? Sugestões são bem-vindas!