O portal da revista Exame publicou recentemente uma matéria que causou alvoroço na pilotosfera: EUA buscam pilotos e abrem portas para brasileiros que querem trabalhar lá – Falta de pilotos é crítica nos Estados Unidos e brasileiros podem tirar green-card antes de mesmo de conseguir oferta de trabalho lá. Como de hábito neste tipo de reportagem, fala-se muito sobre o “apagão de pilotos” global, dos altos salários pagos atualmente para pilotos que atuam na linha aérea, e outras questões que o leitor deste blog já conhece decor & salteado. Mas, no penúltimo parágrafo, lê-se uma informação não tão conhecida assim, que é o que vale a pena mesmo na matéria:

O pedido de visto sem ter oferta prévia de trabalho por conta do interesse nacional na profissão é chamado de National Interest Waiver (NIW).
Para ser elegível ao green-card nesta categoria é preciso cumprir alguns requisitos básicos: formação de piloto, licença de piloto ligada a alguma aeronave comercial da Airbus ou Boeing, experiência como piloto ou copiloto em companhia aérea comercial entre cinco e 10 anos.

Consultando a fonte oficial da informação, o site do departamento de imigração dos EUA (USCIS), verificamos as diversas possibilidades que profissionais estrangeiros têm para imigrar para os Estados Unidos, desde o EB-1 (para ganhadores de prêmios Nobel, pesquisadores de renome, executivos de multinacionais, etc.) até o EB-5, que ficou bem popular entre empresários brasileiros nos últimos anos (o sujeito tem que investir em negócios nos EUA – dependendo do caso, entre US$500mil e US$1milhão). E, entre um e outro, temos o EB-2, código para o “Employment-Based Immigration: Second Preference”, que possui três sub-categorias, uma delas a citada “NIW-National Interest Waiver”, para profissões de interesse nacional dos EUA (os pilotos, neste momento, seriam enquadráveis neste quesito) cujos profissionais tenham “habilidades excepcionais”. Nesta sub-categoria, não há necessidade de haver um “patrocinador” (uma empresa interessada em contratar o piloto) para aplicar.

O complicado é: o que seriam as tais “habilidades excepcionais”? Há uma lista de critérios listados no site, mas eles são genéricos (para qualquer profissão), e o piloto interessado provavelmente terá muitas dificuldades para obter o ‘green card’ via EB-2/NIW por conta própria. Daí a necessidade de contratar consultorias como a citada na reportagem da Exame, e uma investigação preliminar deste tipo de serviço mostrou que o mercado costuma cobrar cerca de US$30mil para prestar tal assessoria. Além disso, há as taxas que precisarão ser recolhidas para o governo americano, que irão variar de acordo com a quantidade de pessoas da família do proponente candidatas à imigração – para um casal sem filhos, este valor será de aproximadamente US$5mil. Só aí, temos US$35mil, valor que pode facilmente dobrar (ou até mais que isso), se o piloto tiver que arcar com as despesas com uma eventual convalidação de licenças e habilitações na FAA.

Mas dinheiro não é tudo, também é preciso ter um certo nível mínimo de experiência para ter acesso a esta alternativa. Muito embora não haja referência no site da USCIS quanto à necessidade de habilitação de TIPO relativas à operação de aviões da Boeing ou da Airbus como está na matéria da Exame, nem quanto a um mínimo de horas de voo, acho bastante improvável que pilotos com pouca experiência consigam comprovar as tais “habilidades excepcionais” (a propósito, dentre os serviços que as consultorias especializadas no assunto prestam está justamente a avaliação de viabilidade do piloto). E aí chegamos ao centro da questão das tais “portas abertas” da aviação americana: Para o piloto com qualificação suficiente para obter o visto EB-2/NIW, vale e pena investir num ‘green card’?

Lembro que, embora o mercado norte-americano esteja realmente precisando de pilotos, continua não sendo fácil obter as melhores vagas do mercado (as que pagam os míticos salários de seis dígitos citados na reportagem); enquanto que nos mercados da Ásia e do Oriente Médio, é possível começar a carreira já com elevados patamares salariais. E, no mercado Europeu, é possível obter uma remuneração no mínimo equivalente à dos EUA sem ter que arcar com os custos e os riscos* do ‘green card’. Ou seja: emigrar para os EUA com ‘green card’ obtido via EB-2/NIW pode ser uma ótima opção para quem tem o interesse específico no mercado americano ou em residir nos EUA. Mas para quem quer maximizar as alternativas como piloto profissional, há opções mais interessantes no planeta.

*Obs.: Sempre existe o risco de, mesmo contratando uma empresa de consultoria honesta, o processo imigratório ser indeferido pela autoridade da USCIS – isso sem contar com os pilantras de plantão, que existem em qualquer negócio. Portanto, recomenda-se o máximo de cuidado e conservadorismo na condução de um processo desta natureza.