Depois que o Capt Sullenberger escreveu um post no Facebook dizendo que 200h de experiência seria “uma quantia absurdamente baixa [de horas de voo] para alguém no cockpit de um jato de linha aérea”, a ‘pilotosfera’ se incendiou com as discussões sobre o “manicaquismo copilotíceo”, digamos assim. A discussão é gigantesca e, em minha opinião, já começa equivocada pelo fato de se focar somente na quantidade de horas de voo do piloto, independente de quem é esse sujeito ou como estas horas foram voadas. Horas de voo não são commodities, e eu acho que já passou da hora de mudarmos esse entendimento simplista sobre a experiência de voo dos pilotos.

Mas essa história da experiência mínima do copiloto de linha aérea é muito mais complexa, em especial quando entramos na questão de como obter horas de voo de qualidade para ser copiloto de um 737-Max fora do ambiente de linha aérea? Não creio que o Sully ache que o copila do voo da Ethiopian – que, na verdade, tinha 350h de voo, de acordo com o Avherald – teria evitado o acidente se ele tivesse passado mais 1.150h puxando faixa na praia*, né? O problema é que se o sujeito não tiver oportunidade para atuar como copiloto numa linha aérea, ele jamais terá como adquirir as citadas “horas de voo de qualidade” para atuar como… Copiloto de linha aérea! E aí? Como fazer para sair dessa cilada de raciocínio circular?

Esta é a discussão que realmente vale a pena.

 

*Ou qualquer outra que seja muito diferente da linha aérea, não há nenhum menosprezo à aeropublicidade aqui. Poderia ter citado, por exemplo, a acrobacia aérea, que o sentido seria o mesmo: uma atividade que requer habilidades e conhecimentos diferentes da linha aérea, nada mais do que isso.