O voo a vela (ou volovelismo) é uma forma de voo que utiliza aeronaves sem motor, chamados planadores, comumente praticado para fins de lazer ou competição. O planador é uma aeronave com capacidade para um piloto (monoplace) ou dois (biplace), sendo o último mais utilizado para voos de instrução ou de passeio. O voo a vela é considerado, por muitos, algo além de uma forma de hobby: um esporte que desenvolve muitas técnicas de pilotagem, desde o controle primário da aeronave até noções aprofundadas de navegação e meteorologia, por exemplo.

Após a leitura do artigo “Why flying gliders makes safer pilots” da revista Plane & Pilot Magazine, me senti motivado a escrever um pouco sobre o tema aqui na coluna.

Iniciei minha caminhada na aviação justamente voando planadores. Após obter o PPL, me dediquei durante anos à instrução em planadores e motoplanadores, e depois fui  também obter a licença de piloto de rebocador. A experiência no volovelismo acrescentou em muito na minha formação como profissional, e considero dois grandes fatores como diferenciais: o ganho nas habilidades de pilotagem (“stick-and-rudder” em inglês, ou o nosso vulgo “pé-e-mão”) e também o enriquecimento no trabalho em equipe.

O artigo em questão fala sobre o quão abrangente é o voo em planadores para o desenvolvimento das técnicas de pilotagem e controle da aeronave no voo a vela. O piloto de planador obtém um entendimento muito mais amplo sobre a aerodinâmica do voo, e tem um feedback muito mais preciso em relação às respostas dos comandos. Além disso, o treinamento dá ênfase maior e permite melhor atuação dos comandos em manobras críticas como a glissada, o estol e o parafuso. Vou traduzir um trecho particularmente interessante do artigo a seguir:

“…essa experiência deverá produzir um piloto que possui o conhecimento enraizado sobre o fato de que são as asas que mantém uma aeronave no ar, e não o motor. As longas asas de um planador produzem guinada adversa o suficiente para que seja requerido o aprendizado de uso correto do leme de direção. O tipo de trem de pouso comum aos planadores, uniciclo, também exige o bom uso dos pedais. A maioria das modernas aeronaves a motor tendem a minimizar a guinada adversa e, com trem de pouso triciclo, fazem com que o uso “preguiçoso” de pedal se torne comum. Conforme se avança no curso de piloto de planador, chegando ao ponto do treinamento em térmicas, se demanda a prática de fazer curvas apertadas a baixa velocidade”.

E “o estado atual do treinamento em aeronaves a motor está repleto de distrações. Hoje existem regulamentos que parecem não ter fim, aeronaves com qualidades de voo quase que benignas demais e pousos fáceis com aeronaves de trem triciclo. Isso sem mencionar todos os rádios e outros equipamentos que ocupam espaço dos recursos disponíveis. Com tudo isso acontecendo, as habilidades de ‘stick-and-rudder’ são deixadas em segundo plano. É por isso que aprender a voar em planadores faz tanto sentido. Dominar os conhecimentos e habilidades de ‘stick-and-rudder’ é o cerne do treinamento volovelista. Um voo de treinamento em um planador, principalmente quando realizado em atmosfera calma, permite ao aluno realmente ouvir, ver e sentir como os comandos afetam a aeronave”.

Além das habilidades de pé-é-mão, gosto muito da maneira com que o voo a vela nos ensina a noção de planeio de cada equipamento e nos faz voar aeronaves motorizadas com uma consciência muito maior em relação à tomada de decisão em caso de uma falha de motor. Afinal, todo avião plana! A experiência com o planeio fez com que pilotos conseguissem pousar até mesmo aeronaves de grande porte em situações de perda de motores, como nos casos do voos Air Transat 236, Air Canada 143 e US Airways 1549 – o famoso caso do Rio Hudson.

CRM

A prática do voo a vela é realizada sempre em equipe, incluindo alunos, pilotos, instrutores e rebocadores. Diferentemente do voo a motor, onde o aluno marca horário na escola ou aeroclube e pode comparecer apenas para voar, o volovelismo exige do participante um maior comprometimento, fazendo com que o mesmo se apresente logo pela manhã para ajudar nas tarefas pré-voo, e vá embora apenas após do termino dos voos, guarda do material e debriefing. Um mínimo de participantes é necessário para que a operação seja viável e ocorra com fluidez.

O fato de ter que trabalhar em equipe, realizando as operações em conjunto com outros colegas, faz do aluno volovelista uma pessoa com maior capacidade de teamwork. (As tarefas comuns de um dia de operação incluem a retirada e manuseio das aeronaves no hangar, inspeção pré-voo e briefing, deslocamento de material até a pista em uso, procedimentos de segurança em solo, inspeção da corda de reboque, entre outros). Além disso, enquanto o aluno espera sua vez de voar, ele realiza outras atividades a fim de permitir que seus colegas também consigam decolar, como, por exemplo, o engate da corda no avião rebocador, a sinalização na decolagem ou a corrida de asa.

Durante o briefing inicial do dia, que reúne todos os participantes da operação, são atribuídas tarefas e responsabilidades a cada um dos elementos. O piloto mais experiente, por exemplo, pode ficar na função de chefe de pista: ele coordena o sequenciamento dos voos, a realização de tarefas durante a operação, e é o responsável pelo andamento da mesma. Deve haver também o instrutor responsável pela operação. Ele toma as decisões pelo grupo – como, por exemplo, escolher a pista em uso ou abortar os voos em caso de condições meteorológicas desfavoráveis. Os alunos menos experientes devem ser instruídos por aqueles que já saibam realizar os procedimentos. Os alunos também podem se candidatar a anotadores: estes documentam toda a operação com os horários de decolagem, pouso, e as tripulações de cada aeronave.

Todos esses eventos contribuem para um maior envolvimento por parte do aluno. Ele acaba entendendo melhor a atividade como um todo, e, após ter passado por todos estes processos, possui uma grande experiência que vai além das horas voadas. Esta experiência ainda pode ser ampliada caso o aluno (ou já piloto) participe de campeonatos como membro de equipe de terra, já que ele terá que ajudar a montar e desmontar a aeronave, auxiliar no caso de um resgate a um pouso fora, entre outros cenários exclusivos às competições.

Através da necessidade de trabalho em equipe na prática do voo a vela, o piloto de planador aprende e desenvolve um senso de coletividade e altruísmo que é único de quem pratica o esporte. Para aqueles que seguem carreira na aviação comercial, isto facilita o relacionamento com os colegas de profissão, com os outros funcionários da empresa e, principalmente, no relacionamento entre as tripulações dentro da aeronave. Justo concluir, então, que a formação volovelista proporciona aos alunos e pilotos uma ótima noção de CRM.

Pode-se dizer, resumidamente, que o voo em planadores aperfeiçoa o aprendizado da pilotagem pelas seguintes características:

  1. Oferece maior sensibilidade dos comandos.
  2. Proporciona ótima noção de afundamento e planeio.
  3. Permite o desenvolvimento mais amplo da tomada de decisão em situações críticas e de pane.
  4. Aprimora conhecimentos teóricos e aplicação prática de teoria de voo e meteorologia.
  5. Desenvolve o trabalho em grupo e espírito de equipe.

Para finalizar, deixo a recomendação para que vocês assistam ao episódio do programa Aero Por Trás da Aviação sobre planadores, no qual fui convidado a participar e mostrar um pouco sobre como é uma operação de voo a vela, que se encontra no início deste post.