No artigo CHEGAMOS AO FUNDO DO POÇO NA FORMAÇÃO DE PILOTOS, o foco foi analisar um indicador de demanda por formação aeronáutica: a quantidade de pilotos comerciais formados no Brasil, que apresentou quedas 49% e 81% (respectivamente, para PCAs e PCHs) nos números de 2018 comparados com os de 2013 . Vejamos, agora, o que aconteceu com um importante indicador de oferta na formação de pilotos: a quantidade de aeronaves de instrução (categoria PRI) existentes no país. Verificando os dados de frota publicados pela ANAC aqui (que, infelizmente, não diferenciam aeronaves de asa fixa e rotativa), temos que em 2018 havia 1.811 aviões e helicópteros PRI, contra 1.805 em 2013 – ou seja: a oferta se manteve praticamente estável no período (até cresceu um ‘cadinho’, cerca de 0,3%).

Porém, analisando a oferta e a demanda em conjunto (e somando as quantidades de PCA com as de PCH para obter uma quantidade global de PCs formados em determinado ano, devido ao fato dos dados sobre frota não distinguirem aviões de helicópteros PRI), temos o seguinte:

  • Em 2013, pico da formação de pilotos na série histórica apresentada pela ANAC, tivemos 2.467 PCs formados, e naquele ano havia 1.805 aeronaves registradas na categoria de instrução (PRI), com uma relação aeronave/aluno formado da ordem de 0,73.
  • Já em 2018, ano em que 1.018 PCs se formaram, havia 1.811 aeronaves PRI, levando esta relação para 1,78; isto é:
  • A relação aeronave PRI/aluno de PC formado aumentou 143% no período 2013-2018.

Este indicador não é perfeito, e sabe-se que as aeronaves de instrução não são utilizadas somente para a formação de PCs – elas também se prestam à instrução de PPs e a usos como a obtenção e revalidação de determinadas habilitações (IFR e MLTE, principalmente) por pilotos já formados. Também está claro que analisar dados sobre asa fixa e rotativa num mesmo indicador não é recomendável. Mas, a despeito de todas estas fragilidades metodológicas, o aumento do índice ‘aeronave PRI/aluno de PC formado’ em quase uma vez e meia no período 2013-2018 indica que, muito provavelmente, a relação de oferta e demanda de instrução aeronáutica cresceu nesta mesma proporção (aproximadamente 150%) neste mesmo período.

Este aumento significativo na relação de oferta e demanda no segmento de formação aeronáutica tem consequências econômicas óbvias: aumento de competição e, por decorrência, achatamento das margens de lucro para os aeroclubes e as escolas de aviação. Não por acaso, temos visto diversas instituições fechando e o sucateamento da infraestrutura de instrução, sem contar os problemas de qualidade na formação de pilotos. Ou, em outras palavras, é o fundo do poço da formação de pilotos no Brasil (mesmo que não seja impossível cavar e ir ainda mais fundo…).