Publicamos diversos posts nestes últimos dias tratando da crise no setor de formação de pilotos no Brasil. Primeiro, falamos da diminuição no volume de pilotos formados pelos aeroclubes e escolas de aviação do Brasil, que caíram à metade no caso de PC-Avião, e em 80% para PCH, no período 2013-2018. Depois, enfocamos a super-oferta de formação aeronáutica gerada por esta diminuição abrupta nas quantidades de novos PCs formados, e suas consequências econômicas óbvias: aumento de competição e, por decorrência, achatamento das margens de lucro para os aeroclubes e as escolas de aviação. E, no terceiro artigo da série, tratamos dos reflexos da crise da formação de pilotos na empregabilidade de instrutores de voo. Agora, falaremos do lamentável fechamento do Aeroclube de S.Paulo (vide nota à imprensa), um evento que sintetiza, simbolicamente ao menos, o fundo do poço na formação de pilotos no Brasil.

Objetivamente falando, o fechamento do ACSP (sendo mais preciso, a ordem para desocupação do espaço que a instituição ocupa no Campo de Marte) decorre de uma querela judicial deles com a Infraero, originada pelo fato de o aeroclube ter cedido parte da área que ocupava para a instalação de um bar e restaurante, o que feriria seu respectivo contrato de concessão, segundo a estatal de administração aeroportuária. Isso é o que está no processo citado pela nota do ACSP, e é preciso deixar claro que a decisão da juíza pela desocupação imediata da área não significa, necessariamente, que o aeroclube tem que encerrar suas atividades: ele pode continuar operando em outra área no próprio Campo de Marte ou em outra localidade, sem contar que, uma vez que a Infraero volte a licitar o imóvel, ele até poderia retornar ao local; tudo vai depender da decisão a ser tomada pela instituição. Mas o ponto que gostaria de enfocar é outro: o caráter simbólico da saída do ACSP de sua “casa” no Campo de Marte.

O fechamento do Aeroclube de São Paulo representa perfeitamente o momento por que passa a formação de pilotos no Brasil, mas fica a dúvida: a formação de pilotos está no fundo do poço porque as instituições falharam; ou as instituições sucumbiram ante a falência da formação aeronáutica brasileira? O que veio primeiro? Ou as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo? Esta é uma questão que não teremos como responder aqui, mas dá para realizar alguns exercícios de raciocínio.

Independente da questão do bar, o fato é que o fechamento do ACSP está acontecendo porque ele perdeu a importância que tinha no passado, exatamente o mesmo motivo que esteve por trás do fechamento do Aeroclube do Brasil, o pioneiro do país e fundado pelo Santos Dumont. Na minha modesta opinião, acreditou-se que a placa citando a fundação da instituição em 1931 tinha algum poder mágico, ou que ele seria “too big to fail”, para usar uma famosa expressão em inglês que significa algo como “grande (ou importante) demais para sucumbir”. (A Varig foi muito maior e mais importante para a aviação, e sucumbiu anos atrás… O que mais se vê no cemitério são lápides de gente insubstituível). E quando o ACSP acordou para o problema – e gostaria de elogiar a atual administração da entidade, que vem realizando esforços espetaculares para revigorar a instituição nos últimos anos! -, já era tarde demais para corrigir a rota. Deu no que deu.

Outra boa questão a ser explorada é a coincidência da desocupação do ACSP ao mesmo tempo em que o governador se lança numa ação para fechar o próprio Campo de Marte, transformando-o num parque. Uma coisa tem a ver com a outra? E, mais do que isso, uma coisa (a desocupação do ACSP) fortalece ou enfraquece a outra (a transformação de Marte em parque)? Talvez a resposta não seja tão óbvia quanto parece, tudo vai depender de que destino será dado à área depois que o aeroclube desocupá-la.

Finalmente, gostaria de trazer para a discussão o papel do poder público e da própria comunidade aeronáutica para este acontecimento. Até que ponto “eles” (ANAC, SAC e demais órgãos do poder executivo federal, estadual e municipal) e “nós” (pilotos, operadores e associações da aviação) agimos de maneira equivocada ou nos omitimos para que se chegasse a este resultado? Onde erramos e o que poderíamos ter feito de diferente?

Como se vê, temos mais perguntas que respostas neste momento. Mas, segundo a filosofia SIPAER, acho que o melhor seria tentarmos aprender com os erros do que tentar achar culpados, pois nós precisamos recuperar o setor de formação aeronáutica urgentemente e sair do fundo desse poço o quanto antes! Não dá para continuar fazendo as coisas do mesmo jeito e esperar resultados diferentes!