O texto a seguir, da lavra do Enderson Rafael, é um trocadilho com o universalmente famoso “Milagre do Rio Hudson”: o voo ‘US Airways 1549’ que pousou na água do rio Hudson seis minutos após decolar do Aeroporto LaGuardia, com o Cmte Chesley “Sully” Sullenberger no comando. O foco, todavia, está na questão da relação entre experiência da tripulação e segurança de voo, tema polêmico e multifacetado. Vale muito a pena dedicar uns minutinhos à sua leitura!

O anti-milagre do milharal de Zhukovsky

Enderson Rafael

Era uma vez um advogado cujo verdadeiro sonho era tornar-se piloto de linha aérea. Aos 32 anos ele fez a grande e assustadora mudança na carreira, e contratado por uma companhia que crescia exponencialmente após graduar-se em 2013, tornou-se comandante ano passado apesar da pouca experiência. Seria apenas mais uma bela e desconhecida história pessoal na aviação mundial, não fosse Damir Yusupov, de 41 anos, o piloto em comando do Airbus A321 que perdeu os dois motores logo após a decolagem do aeroporto Zhukovsky, em Moscou, essa semana. Numa decisão extremamente rápida, Damir resolveu pousar em frente, num milharal, algo praticamente inédito na história recente da linha aérea. “Eu não senti medo algum. Eu apenas vi um milharal em frente e tentei fazer um pouso razoavelmente macio. Diminuí a razão de descida para tentar tocar o mais suavemente e planar o máximo que pudesse.” – declarou o comandante, adiantando sobre a reação da mídia e do público: “É estranho e eu sou tímido.”

Com 3000 horas totais, a maioria dos pilotos de linha aérea ainda está no assento da direita, e por lá ficarão bem mais tempo. Apesar de o mínimo legal ser metade disso, na prática as companhias costumam restringir a vaga de comando para profissionais mais experientes, e no fim, o exemplo de Damir ilustra bem que para a promoção é na verdade essencial a necessidade da companhia de preencher seus quadros, e não inerentemente a experiência prévia: uma vez cumpridos os requisitos legais e o primeiro oficial tendo passado no processo para o upgrade, ele pode se tornar comandante bem cedo na carreira.

Dito isso, é impossível não lembrar dos comentários do único comandante a encarar situação semelhante nos anos recentes: uma década atrás, Chesley Sullenberger, um experimentado piloto com prévia carreira militar e há décadas na linha aérea, perdeu os dois motores de seu Airbus A320 sobre Nova Yorque – também para pássaros, também numa manhã – e cinco minutos depois, amerrisou no rio Hudson. Além de uma fração das quase 20 mil horas de voo de Sully, Yusupov também só teve uma fração do tempo que Sully teve, e tocou o solo segundos após a decolagem, e não minutos, como o americano. Seu primeiro oficial, Georgy Murzin com 600 horas de voo, também passa longe da experiência do primeiro oficial de Sully, Jeffrey Skiles, que tinha mais de 15 mil horas. E no entanto, com muito menos experiência, muito menos altitude, e muito mais passageiros – o A321 de Yusupov levava 233 pessoas, contra 155 do A320 de Sully – a tripulação russa conseguiu um ótimo resultado. Que pese a sorte de ser de dia e de decolar sobre uma área rural, as pouquíssimas atitudes possíveis da tripulação foram todas acertadas.

Sullenberger tem enfatizado ao longo dos anos o quanto a sua experiência o ajudou, e o quanto ela é importante e até fator essencial para a segurança na aviação. Ao ponto de colocar num comentário recente após o acidente do Boeing 737MAX na Etiópia, bastante peso sobre a inexperiência do primeiro oficial do voo, apenas para ser desmentido pelo relatório preliminar dias depois, que mostravam uma atuação bastante adequada do mesmo. E ainda que nem todas as tripulações fossem provavelmente ter o mesmo desfecho trágico diante da mesma falha, hoje é fato reconhecido que a aeronave tem um problema grave que precisa e está sendo corrigido. O ponto que o raciocínio do famoso comandante americano ignora é o quão robustos tornaram-se, nas últimas décadas, os treinamentos, os regulamentos e os projetos das aeronaves. Como uma falha catastrófica é extremamente rara – para fins de comparação, o 737MAX, com centenas de milhares de decolagens e duas perdas totais, tem índice de segurança semelhante a grandes jatos do passado, e isso já foi suficiente para proibi-lo de voar nos céus de hoje – a indústria pôde se dar ao luxo de, aprimorando em muito o treinamento dos pilotos, e com aviões cada vez mais automatizados e com sistemas redundantes, conciliar uma necessária curva de aprendizado com a necessidade de pilotos que o mercado global enfrenta, sem comprometer as margens de segurança.

Há detalhes técnicos que surgirão nos próximos dias e semanas, no decorrer da investigação. Em que modo o sistema fly by wire do jato estava operando, se baixar o trem poderia ter um resultado melhor, quão grave foi o dano nos motores e pormenores das ações dos pilotos e comissários.

Ao contrário de Sully, o discreto e tímido Yusupov está só começando numa carreira que já era brilhante, e provavelmente vá prosseguir nesse caminho, ao invés de parar de voar e vestir-se de uma empáfia que não cai bem em ninguém, principalmente naqueles cujo destino tornou-os exemplos em seus meios. Mas, se a frase “não existe atalho para experiência” virou um clássico do repertório de Sully, talvez ele tenha esquecido de combinar com os russos. É relevante lembrar que não existe tornar-se experiente sem ter sido inexperiente antes, e que a aviação, com suas muitas especificidades, faz qualquer experiência prévia mais desejável que essencial. A experiência realmente importante é naquele tipo de aviação que você está voando agora: essa sim será a experiência que provavelmente salvará a sua vida, então, quanto mais cedo você estiver pronto para começar a adquiri-la, melhor.