Achei muito interessante a “secada de pouso” do Enderson no vídeo compartilhado neste post! Na prática, seria um “pouso americano” – o inverso de uma “decolagem americana” em determinados aspectos, e os comentários que fiz neste post de três anos atrás são praticamente todos aplicáveis a esta situação analisada pelo Enderson. Confira se não são:

Mais uma da série “não pega nada não” (só que SIM, pega SIM!): a “decolagem americana”

By: Raul Marinho – Posted on 
Dizem que os aviões americanos que operavam na Guerra do Vietnam tinham que decolar com a maior razão de subida possível para fugir dos tiros dos vietcongues, daí o termo “decolagem americana” para referir-se ao procedimento em que, de acordo com o Relatorio Final Simplificado do PR-AVG (um acidente ocorrido logo após a execução de tal procedimento): “após sair do chão, a aeronave permanece próxima ao solo em voo rasante e, ao final da extensão da pista, e devido à alta velocidade adquirida, sobe em ângulo elevado”. Uhuul!!!

Trata-se de “uma manobra perfeitamente normal”, de acordo com o piloto entrevistado pelo jornal Estado de Minas logo após o acidente do relatório acima. A investigação do CENIPA também revelou que “este tipo de decolagem ocorria com frequência no aeródromo [Pampulha/BH], sendo considerada normal por muitos deles [funcionários do aeroporto e pilotos daquela região]”. “Normal” é um adjetivo que permite vários significados, mas neste caso dois podem se aplicar: A)usual, comum; natural; ou B)conforme a norma, a regra; regular.

No início do meu curso de PC, eu aprendi a realizar tal procedimento como uma manobra “normal do tipo A” – ou seja: era absolutamente corriqueiro realizar uma “decolagem americana” – para mim, era como uma questão de pousar com ou sem flap. Num cheque com INSPAC, talvez eu efetuasse a manobra pensando ser totalmente correta (ou seja: eu também achava que ela era “normal do tipo B”). Só depois, quando fui voar numa escola com maior grau de padronização, foi que eu entendi que a “decolagem americana” não era nem regular e nem seria aceita ali como “usual/comum/natural”. Isso dá uma ideia do baixíssimo nível da cultura de segurança que havia naquele primeiro aeroclube – que, não por acaso, foi o mesmo onde ocorreu o incidente citado neste post.

A “decolagem americana” está fora das normas não porque quem as escreveu é “chato”, mas porque se concluiu que há risco da coisa dar errado – e é por isso que existe a “padronização” na pilotagem. No caso do PR-AVG, o resultado foi três mortes – só não foram mais porque o avião carregava um único passageiro e, por milagre, não morreu ninguém em solo (a região do acidente é um trecho urbano densamente habitado). Acidentes decorrentes de “decolagens americanas” especificamente não são frequentes, é verdade, mas a questão é que acidentes causados por despadronização são muito comuns, e quem faz uma “decolagem americana” hoje, amanhã vai dar um rasante, depois de amanhã vai encurtar um procedimento de aproximação (vide PR-AFA), e por aí vai.

Não caia na armadilha do “não pega nada não”, isso não existe na aviação. Pode “não pegar nada” uma vez, duas, cem; mas uma hora uma “violaçãozinha banal” como uma “decolagem americana” lhe coloca num relatório do CENIPA – que, a propósito, nem será concluído por causa da violação que você cometeu (e é claro que não existe isso de “violaçãozinha e violaçãozona”…). E aí, nem para Recomendação de Segurança de Voo seu acidente vai servir.